A síndrome de pica, também chamada de alotriofagia, é um distúrbio alimentar marcado pelo consumo persistente, por pelo menos um mês, de substâncias que não são alimento nem têm valor nutritivo. Este comportamento, considerado fora do padrão, pode prejudicar tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico de quem apresenta o quadro.
O termo “pica” tem origem no nome científico de um pássaro (o Pica pica, ou pega-rabuda), conhecido por comer uma grande variedade de itens indiscriminadamente, o que inspirou a definição do transtorno. Em pessoas com o quadro, o impulso de ingerir objetos ou materiais inusitados pode persistir por semanas ou meses, mesmo sabendo-se que não são alimentos, e isso caracteriza a síndrome.
Entre os itens mais relatados estão papel, sabão, pano, cabelo, terra, giz, pó de talco, argila, metal, pedras, carvão, cinzas, amido e gelo.
Possíveis causas
A pica pode estar associada a diferentes fatores:
- Deficiências nutricionais, especialmente de ferro e zinco — deficiências que podem desencadear ou agravar a vontade de consumir substâncias não alimentares.
- Condições de saúde mental, como transtorno do espectro autista, esquizofrenia ou déficits intelectuais, também estão entre os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da síndrome.
- Gravidez e infância — embora não existam dados globais precisos sobre a frequência, relatos indicam que gestantes e crianças são grupos frequentemente associados a episódios de pica.
Especialistas observam que, no caso das crianças, colocar objetos na boca pode fazer parte do comportamento exploratório normal até certa idade. Porém, quando o ato persiste além desse período ou inclui itens claramente não comestíveis, pode sinalizar um transtorno.
Um relato que chama a atenção
Alguns casos ilustram a intensidade do transtorno. Uma mulher relatou ter consumido grandes quantidades de farinha de mandioca diariamente, a ponto de alterar sua rotina alimentar e causar problemas de saúde, até que exames revelaram anemia significativa e o tratamento dessa condição por meio de reposição de ferro fez desaparecer o desejo compulsivo. Esse relato mostra como lacunas nutricionais podem estar fortemente ligadas à manifestação da pica — e também como a vergonha ou o estigma podem dificultar a busca por ajuda médica.
Riscos à saúde
Consumir substâncias não alimentares não é apenas incomum — pode ser perigoso. Mesmo materiais aparentemente “inofensivos” podem:
- Interferir na absorção de nutrientes, exacerbando deficiências já existentes.
- Cause danos físicos, como perfurações no trato digestivo ou lesões dentárias.
- Aumentar o risco de intoxicação, caso a substância ingerida seja tóxica.
Muitas pessoas escondem o comportamento por medo de julgamento, o que adia a procura por tratamento e aumenta a chance de complicações.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico da síndrome de pica é clínico e baseia-se na repetição da ingestão de substâncias não alimentares por um período prolongado, sem que isso faça parte de práticas culturais ou sociais normativas. Além disso, profissionais de saúde costumam solicitar exames para identificar possíveis déficits nutricionais e avaliar complicações físicas decorrentes da ingestão desses itens.
Não existe um tratamento uniforme para todos os casos, mas abordagens multidisciplinares são frequentemente usadas. Elas podem incluir:
- Correção de deficiências nutricionais por meio de suplementação e ajustes alimentares.
- Psicoterapia para trabalhar aspectos comportamentais e emocionais associados ao transtorno.
- Medicação, em alguns casos, quando existe diagnóstico concomitante de transtornos como depressão ou ansiedade.
A síndrome de pica é uma condição complexa que ultrapassa a simples curiosidade ou hábito alimentar incomum. Ela pode sinalizar questões nutricionais, psicológicas ou neurológicas subjacentes — e, por isso, merece atenção médica especializada para diagnóstico, tratamento e apoio às pessoas que convivem com esse desafio.



