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COLUNA | Feminicídio não é pauta feminina, é responsabilidade masculina.

Sou homem. E talvez por isso mesmo eu precise falar sobre o feminicídio que cresce à vista de todos, enquanto fingimos não ver.

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Sou homem. E antes que alguém questione meu lugar de fala, deixo claro de onde escrevo: escrevo como filho, como primo, como sobrinho, como amigo. Escrevo como alguém que convive diariamente com mulheres que ama, e que, como tantas outras, vivem sob a sombra de um medo que não aparece nas estatísticas do dia seguinte.

Janeiro de 2026 ainda nem terminou, e já se fala em 11 mulheres assassinadas por serem mulheres. Não é um número. É um alerta. É uma sequência de vidas interrompidas que revela algo ainda mais cruel: o fracasso coletivo em proteger quem pede socorro, ou quem sequer consegue pedir.

Muito se fala sobre feminicídio quando o crime já aconteceu. Quando há uma cena, um autor, uma manchete. Mas pouco se fala do que vem antes. Do silêncio que antecede o boletim de ocorrência que nunca foi registrado. Do medo de denunciar. Da descrença na proteção. Da mulher que avalia riscos e conclui que denunciar pode ser mais perigoso do que suportar. Essa falha não é individual. É estrutural. É do sistema que promete proteção, mas entrega demora. É da rede que deveria amparar, mas revitimiza. É da sociedade que pergunta “por que não saiu antes?” sem jamais perguntar “por que ele continuou livre?”

O feminicídio não começa no ato final. Ele começa na ameaça ignorada, na medida protetiva descumprida, na denúncia arquivada, na violência tratada como “briga de casal”. Começa quando o medo vence a confiança no Estado. Quando o silêncio parece mais seguro do que a palavra.

Trago esse tema por uma linha diferente porque não quero repetir o óbvio. Quero falar do que não se vê. Do crime que cresce fora do radar, longe dos holofotes, alimentado por omissões sucessivas. Quero falar da urgência de olhar para a prevenção com a mesma seriedade com que se cobre a tragédia.

Como homem, não posso me dar ao luxo de achar que isso não é comigo. É comigo porque é com elas. E enquanto mães, primas, tias e amigas seguirem calculando cada passo para sobreviver, algo está profundamente errado.

Não basta indignação pós-morte. É preciso garantir proteção real antes que o nome vire estatística. É preciso ouvir sem duvidar, agir sem postergar, proteger sem falhar. O feminicídio não é um problema das mulheres, é um problema de todos nós. E o silêncio, esse sim, é cúmplice.

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