Escolas de samba de Porto Alegre criam ‘Carnaval da Resistência’ sem competição e sem prefeitura – Porto Alegre 24 horas

Escolas de samba de Porto Alegre criam ‘Carnaval da Resistência’ sem competição e sem prefeitura

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Por Fernanda Canofre / Sul21

Em janeiro, Porto Alegre já sabia que seu desfile tradicional de escolas de samba não aconteceria junto com o Carnaval. A Liga das Escolas ainda trabalhava datas, chegou a confirmar o final de semana de 24 de março. No meio desta semana, porém, veio a notícia do cancelamento definitivo do Carnaval competitivo no Porto Seco. Sem verba do poder municipal, sem recursos da iniciativa privada e com dívidas do desfile do ano passado ainda por pagar, pareceu a decisão “mais responsável”, segundo o presidente da Imperadores do Samba, Rodrigo Costa.




“A gente teve a consciência de parar uma coisa que estava errada. Uma coisa que ainda daria problema”, diz ele, se referindo à falta de segurança e de estruturas para a realização do desfile deste ano. Entre as oito escolas do grupo especial, a única que não foi a favor do cancelamento da competição foi a União da Vila do IAPI.

 

Logo em seguida ao anúncio oficial da Liga das Escolas de Samba de Porto Alegre (Liespa), veio outro. Algumas das escolas ainda vão sair às ruas no final de março, sem competição, mesmo fora do Porto Seco. A ideia, que partiu da Imperadores e da Imperatriz Dona Leopoldina, foi batizada de “carnaval da resistência”.

“A Imperadores, independente do que acontecer no Carnaval, sempre vai fazer desfile porque a escola é para isso”, afirma Rodrigo. Segundo ele, ainda não se sabe quantas escolas irão participar do desfile alternativo, planejado para acontecer na Avenida Beira-Rio, também no dia 24 de março. Tentando gastar o mínimo possível, eles buscam apoio apenas para instalação de banheiros químicos e de bretes que separem público e avenida.




Com o anúncio da prefeitura de que não ajudaria o Carnaval, deste ano, além da decisão da escola Embaixadores do Ritmo, de transformar críticas ao prefeito em samba-enredo, o evento virou uma questão ainda mais política.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, logo após o anúncio das escolas, Nelson Marchezan Jr. (PSDB) declarou: “A responsabilidade da nossa administração? Nenhuma! Fizemos os esforços necessários e estamos à disposição para todas as sugestões. Agora, botar recursos públicos em qualquer evento, no momento em que temos dificuldades em pagar as creches comunitárias, é um ato questionável juridicamente”.

“Todo administrador tem responsabilidade do que administra, até hoje o Carnaval de Porto Alegre fez parte da administração da Prefeitura. É muito simples levantar uma bandeira de que não é culpado porque não estava ali. Mas, tu sabia, antes de entrar o que teria. Eu respeito a opinião dele, mas não compactuo com o que ele diz”, contesta o presidente da vermelho e branca. “A verba da Cultura é separada de qualquer outra. Se existe uma verba para a Cultura, existe uma verba para o Carnaval”.




Para o diretor de Carnaval da Imperadores, Érico Leoti, o discurso é “demagógico”. “A questão de não investir no Carnaval, na cultura popular, tem um viés ideológico sim. Porque a questão de que a saúde financeira do município está prejudicada, o gestor público está lá para trabalhar isso mesmo. Não era surpresa pra ninguém, ninguém está com dinheiro sobrando”.

Aprovada na Câmara, verba foi vetada por Marchezan

Para este ano, as escolas pediram R$ 1 milhão, para pagar apenas as estruturas temporárias do sambódromo. O valor foi apresentado como uma emenda do vereador João Bosco Vaz (PDT), na votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) e aprovado pela Câmara de Vereadores, no dia 30 de novembro. O dinheiro viria do Fundo de Contingenciamento do Município. A decisão, porém, acabou vetada por Marchezan.




“Se alega que não há dinheiro e se nega a ajudar as maiores manifestações populares. Nestes últimos finais de semana, os blocos tiveram que pagar pelos banheiros químicos, por exemplo. Não deveria ser assim, as pessoas pagam impostos”, afirmou o pedetista à Rádio Guaíba.

A diferença do Carnaval nos tempos de Marchezan, para o governo anterior, de José Fortunati (sem partido), segundo a Imperadores, seria de R$ 7 milhões. Esse era o montante destinado ao evento, todos os anos, pela Prefeitura, dividido em R$ 3,9 milhões para infraestrutura (montagem de arquibancadas e camarotes, iluminação da avenida); R$ 1 milhão para serviços (jurados, empilhadeiras, sonorização); e R$ 2,1 milhões pagos às 26 escolas como cachê. A premiação vinha da venda das arquibancadas.

Nesta sexta-feira (23), na quadra da Imperadores, os dois representantes da escola relembraram as negociações feitas desde o início do atual governo. Eles contam que o Carnaval “nunca foi irredutível” com o poder público a ponto de insistir nos R$ 7 milhões. Três dias após a posse oficial de Marchezan, eles se reuniram com integrantes da nova Secretaria da Fazenda. O secretário Leonardo Busatto não participou. Na ocasião, disseram que compreendiam a situação financeira e pediam a liberação de pouco mais de R$ 3 milhões. O equivalente a 50% do que recebiam antes. Dois dias depois, a prefeitura respondeu que não seria possível.




“Desde o ano passado, o prefeito Marchezan tem dito que não iria aportar pelos mesmo motivos que ele tem repetido. Não tem dinheiro para a creche, não tem para carnaval. Desde o início o Marchezan disse isso, não podemos negar. Se antes, na eleição não tinha dito, é outra história. Mas depois de assumir o cargo, ele sempre disse”, salienta Érico.

Em 2017, a prefeitura se dispôs a montar uma força-tarefa, com funcionários especialistas em captação de recursos junto à iniciativa privada, para ajudar a levantar recursos. Apesar do grupo ter sido criado, não conseguiram os investimentos necessários. A única empresa que ajudou foi a Caixa Econômica Federal que aportou R$ 140 mil.

“Esse problema [não ter como arcar com gastos] é anterior à vontade das escolas de fazer ou não o Carnaval. As escolas têm interesse em fazer o Carnaval, a Imperadores do Samba fez seu trabalho durante o ano naquilo que foi possível, nos trabalhos de quadra, que não dependiam de muito recurso financeiro aportado, só que a situação de um desfile começa por ter infraestrutura e ela é muito cara”, avalia Leoti.



Com gestão do Porto Seco pelas escolas, desfile pode voltar

Na metade do ano passado, a prefeitura fez ainda outra proposta às escolas: que elas passem a administrar o Porto Seco. O acordo permitiria que elas mesmas possam decidir sobre negócios com a iniciativa privada e usar o dinheiro arrecadado em eventos no local, para o Carnaval. No dia 21 de dezembro, a Câmara de Vereadores aprovou o projeto de lei que autorizava a prefeitura a fazer o termo de uso. A negociação que começou no meio do ano passado, foi concluída no último dia 28.

Nesta sexta, representantes de escolas e do Corpo de Bombeiros estiveram no complexo para dar seguimento à liberação. A visita foi uma espécie de pré-vistoria para orçar serviços que precisam ser feitos no local, antes da transferência, como capina, limpeza, instalação de ambos elétricos que foram furtados, etc.

Embora não tenham nenhum acordo fechado, Leoti conta que estão com “grande expectativa” de fechar algo com um “grande produtor de eventos a nível nacional”. Ele não revela nomes. “É o único negócio viável daqui pra frente, para dar sustentabilidade para o Carnaval de Porto Alegre”.




Inaugurado em 2004, o Porto Seco foi alvo de polêmica na época da inauguração. Localizado no bairro Rubem Berta, próximo ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, muitos questionavam o afastamento do Centro da cidade e a dificuldade de acesso ao local. Quatorze anos depois, Rodrigo avalia que, embora o Centro não tivesse local com condições de comportar o Carnaval como é realizado hoje, o problema maior é que a cidade não investiu na região.

“Hoje a gente tem uma pista de eventos, salvo falta de infraestrutura, que não existe em lugar nenhum. Por um lado, para o crescimento do Carnaval, foi bom. Porém, a cidade não quis acompanhar. A cidade tinha que ter feito um plano para aquela região, mas não se preocupou que ela se desenvolvesse. Linhas de ônibus, segurança, infraestutura geral. As pessoas enxergam aquilo como um canto da cidade, ninguém quer estar no canto”.

Enquanto os contratos não saem, o presidente se dedica a viabilizar o desfile alternativo. “Não é por acaso que o Carnaval no Rio Grande do Sul sobrevive até hoje. A gente enxerga ele como uma coisa familiar, muito ao contrário do que as pessoas de fora veem”.



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