Sucesso de público e crítica, Cinemateca Capitólio sofre com equipe pequena e sobrecarregada

Sucesso de público e crítica, Cinemateca Capitólio sofre com equipe pequena e sobrecarregada

Enquanto volta a atrair frequentadores após inatividade durante a pandemia, nos bastidores, funcionários enfrentam situação difícil
Foto: Guilherme Santos | Sul21

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O avanço da vacinação contra a covid-19 e a flexibilização das restrições da pandemia na Capital tem feito com que o porto-alegrense volte a se reencontrar com a Cinemateca Capitólio, um dos espaços culturais mais valorizados na cidade. As sessões de cinema diárias costumam atrair um bom público e novos projetos voltaram a ser desenvolvidos, como a mostra Filme como um objeto no espaço: Um olhar sobre acervos de cinema, que ao longo de dois fins de semana e 10 sessões de cinema apresenta um levantamento de 11 projetos recentes de preservação e restauração de filmes de todo o mundo.

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Outra mostra em cartaz chama-se Cinema Chris Marker, com sete obras do realizador francês, incluindo filmes marcantes como Carta da Sibéria, La Jetée, O Fundo do Ar é Vermelho e Sem Sol. Há ainda o trabalho de alfabetização audiovisual com alunos de escolas, a galeria de exposições e toda a vasta rotina de preservação e memória do acervo da Cinemateca, com mais de 60 mil ítens catalogados.

A Cinemateca Capitólio está a mil e agradando o público. Porém, toda a diversificada programação colocada à disposição dos frequentadores esconde o difícil cotidiano de uma equipe pequena, obrigada a se desdobrar para dar conta das múltiplas tarefas exigidas.

Preocupada com a situação, a Associação de Amigos da Cinemateca Capitólio (AAMICCA) iniciou uma série de conversas e articulações para jogar luz ao problema e sensibilizar a gestão da Secretaria Municipal de Cultura (SMC). O objetivo é agregar pessoal à equipe do espaço, que nos últimos anos tem perdido funcionários por aposentadoria, transferências ou novos rumos, sem que haja a devida reposição.

Assim, a Cinemateca Capitólio vive dias paradoxais: vista de fora, oferece diariamente ao público uma programação elogiada; por dentro, tais elogios só são possíveis graças ao esforço de poucos abnegados trabalhadores.

“As saídas não foram repostas, o pessoal tá diminuindo e se continuou tendo as mesmas tarefas. O sucesso mascara a situação e cria mais esforços para os funcionários”, comenta Luiz Antonio Grassi, presidente da AAMICCA.

O processo de restauração do prédio construído em 1928 e a criação da Cinemateca a partir de 2001 formou na ocasião uma equipe bem preparada, que passou inclusive por treinamento na Cinemateca Brasileira. O trabalho no acervo de conservação da memória audiovisual do Rio Grande do Sul exige técnica e conhecimento específico. A conservação de filmes de película, por exemplo, é frágil. Com o passar dos anos, todavia, a equipe inicialmente qualificada tem diminuído.

Além de questionar a falta de pessoal, a AAMICCA pretende fazer esse trabalho de bastidores da Cinemateca Capitólio ser mais conhecido, tanto o que é feito no acervo quanto na área educativa. Para alcançar o objetivo, planeja engajar mais a sociedade e pressionar a Prefeitura.

“De um lado é a negociação de gabinete, e de outro, a sociedade tem que se mobilizar. Se for preciso, vamos às ruas”, afirma Grassi.

A cobrança por novos funcionários, entretanto, traz o receio de que o governo do prefeito Sebastião Melo (MDB) possa retomar a ideia de terceirização da Cinemateca, como chegou a ser proposto pelo ex-prefeito Nelson Marchezan (PSDB). Para o presidente da AAMICCA, a gestão pública é um elemento fundamental a ser mantido.

Concordância

Pelo lado do governo municipal, Daniela Mazzilli, coordenadora de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), concorda com a necessidade de agregar e renovar o quadro de funcionários da Cinemateca Capitólio. Inicialmente, avalia que mais quatro ou cinco servidores já propiciariam não só um desafogo na equipe atual como também permitiria avançar em novos projetos.

Áreas como a administrativa, o arquivo, os projetos de educação e a manutenção predial são algumas das que mais carecem de novos funcionários.

“Estamos realmente num momento de compor um quadro de funcionários”, reconhece Daniela, destacando que a situação atual é decorrente de um processo dos últimos anos. E embora ciente das dificuldades, ela celebra o momento de sucesso do local. “Estamos num período de alegria e pujança. A Cinemateca está atingindo seu fim e isso é muito bonito. Ficamos felizes por estar conseguindo fazer o que foi sonhado. A cidade ‘abraçou’ o espaço como seu e isso nos deixa muito felizes.”

Ao mesmo tempo, a coordenadora de de Cinema e Audiovisual da SMC acredita que a própria experiência relativamente recente de gestão pública do local também tem trazido ensinamentos sobre como administrar a Cinemateca. Nesse cenário, projeta que o novo concurso público aberto pela Prefeitura poderá agregar funcionários à Secretaria de Cultura e, quem sabe, à própria Cinemateca.

Outro caminho para suprir a demanda da equipe pode vir por meio de convênios para projetos específicos ou com a Fundacine para atender alguns trabalhos especializados, como a manutenção dos filmes no acervo. “O serviço que a gente oferece não é feito por qualquer pessoa”, explica.

Assim como o presidente da AAMICCA, Daniela também enfatiza o caráter da gestão pública do espaço e a importância da sociedade civil em participar do processo, uma característica que ressalta ser marcante desde a origem do projeto. “A Cinemateca foi uma construção coletiva. Só voltou a ter sua demanda de cinema por conta da sociedade civil e, agora, seguir ao lado, acompanhando e participando, é um modelo muito bonito”, afirma.

O importante, diz a coordenadora de Cinema e Audiovisual da SMC, é não perder a vontade constante de melhorar. Uma ideia que os atuais membros da equipe da Cinemateca provavelmente concordam e, para tanto, aguardam novos colegas.

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