Crítica | Napoleão, por Rafa Gomes
Foto: Divulgação

Crítica | Napoleão, por Rafa Gomes

“Com Joaquin Phoenix brilhando no papel titular do grande imperador Napoleão Bonaparte e com uma direção competente de Ridley Scott”

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O Porto Alegre 24Horas conferiu o novo longa-metragem de Ridley Scott, diretor que tem uma carreira com um currículo impressionante, com vários clássicos como :Alien – O Oitavo Passageiro”, “Blade Runner” e épicos como “Gladiador e a Cruzada”. Com Napoleão, o diretor tenta fazer o que muitos já falharam, que é contar a história completa do imperador e ditador francês. Estrelado por Joaquin Phoenix (Coringa), o filme traz muito do que fez a carreira do diretor brilhar, porém por se tratar de uma história com muitos momentos a ser contados, acaba em um ritmo um pouco acelerado.

 

A cinebiografia é praticamente um resumo de fatos históricos sobre a trajetória de Napoleão Bonaparte, muitas vezes lutando para manter um tom constante, pulando por momentos importantes de sua história e deixando lacunas que poderiam ser melhor exploradas. A cena de abertura já mostra que a produção não está para brincadeira, mostrando um pouco da crise que levou a decapitação da rainha Maria Antonieta, acontecimento que acabou indiretamente ajudando na ascensão do jovem militar Bonaparte. A crise que aconteceu no final do século XVIII, é apresentada de modo coeso e bastante realista na trama. A revolta do povo, que clamava por um regime de liberdade política e igualdade de direitos, acaba não sendo muito explorada e serve apenas como pano de fundo e alicerce para a história que é contada pelo roteiro de David Scarpa (Gladiador).

 

O texto de Scarpa tem muito para explorar e faz isso bem. Em especial quando se dedica em analisar o lado estrategista do cine biografado e nas batalhas que ele travou. Dessas, o destaque fica para a última batalha, que é filmada por Ridley Scott de modo ÉPICO, sendo muito bem coreografada e retratada. A violência nesses momentos são apresentados de modo brutal e sem filtros. Sem dar muito tempo para a história apresentar o soldado e suas pretensões, já somos jogados para ele liderando as forças francesas no Cerco de Toulon, meses mais tarde. Esse início mostra exatamente o que se esperar do resto do filme, pois o longa tem poucos momentos de respiro, sempre avançando como se tivesse muito conteúdo para explorar (e tem), mas sem tempo suficiente para isso.

 

Presente em praticamente todas as cenas, Joaquin Phoenix é a força por trás da história, se mostrando muito inspirado e entregando uma atuação impecável que o torna um dos melhores atores de sua geração. Mesmo mostrando a força do personagem e seu grau de inteligência na arte da guerra em outros momentos, quando mostra a vulnerabilidade de Napoleão, o ator chega a ser engraçado, ainda que de um jeito contido no papel, criando uma personalidade interessante de se acompanhar e que ajuda a criar uma figura mais complexa do imperador.

 

É essa personalidade que às vezes parece merecer um pouco mais de tempo de tela, já que por simplesmente saltar por anos para mostrar toda a vida de Bonaparte, encontramos o personagem em diferentes momentos da história, até mesmo pulando por momentos importantes. Um exemplo disso é a tomada da Itália, a primeira grande campanha de Napoleão e que nem aparece no filme, sendo citada apenas de maneira bastante superficial.

 

Isso faz com que mesmo com duas horas e trinta e oito minutos de duração, você não o conheça tão bem como poderia. Existem rumores sobre uma “edição do diretor”, com mais de quatro horas, mas como essa versão não é a que chega aos cinemas, não temos como saber se mesmo com todo esse material extra, a execução de Ridley Scott tenha sido tão boa assim. Analisando o que temos acesso, que é a cinebiografia que chega aos cinemas, é possível seguir uma linha de ambição e propósito por parte de Napoleão. Ele cresce com certa rapidez no exército e sua ascensão ao poder parece fácil demais. Em dado momento, é dito que Napoleão é visto como “César” pelos franceses, que o aceitariam com tranquilidade.

 

O filme se preocupa em focar muito mais nos bastidores e na paixão de Bonaparte por Josefina, seu grande amor, vivida por Vanessa Kirby (Pieces of a Woman) que está apaixonante na construção da personagem e consegue mostrar diferentes facetas da Imperatriz, oque serve como fio condutor da história e merece ser indicada ao Oscar como melhor atriz. Quando o longo deixa de abordar o lado militar, o roteiro aborda a vida íntima do general. Essa face mais sensível poderia, e deveria, ser abordada de modo leve, já que Bonaparte era uma pessoa que não tinha um traquejo social dos mais elevados na hora de interagir com o sexo oposto, mas o resultado das cenas é de constrangimento. Para completar Napoleão era um conquistador tóxico e possessivo, querendo controlar todos os aspectos da vida de sua amada. Ela também não foi retratada como uma flor de virtudes.

 

O relacionamento passivo-agressivo do casal, perde um pouco a força devido a alguns furos na trama. Furos esses, que são propositais e devem ser explorados na versão do diretor que será lançada na Apple TV+. O problema é que nos cinemas esses furos devem gerar confusão e atrapalhar o entendimento de algumas evoluções vistas, em relação à história e principalmente na relação entre os personagens.No quesito técnico a produção tem muitos pontos altos. A montagem é excelente na ação, fazendo com que os 158 minutos de duração passem rápido, devido ao seu ritmo cadenciado.

 

O design de produção merece uma indicação ao Oscar 2024, os ambientes retratados são grandiosos, imponentes e levam o espectador numa viagem no tempo. Junto a esses acertos, merecem destaque os figurinos, cabelos e maquiagens feitas nessa produção, além disso, os efeitos especiais são usados de modo pontual, mas que são de um realismo chocante. Porém a fotografia destoa e se torna simples na produção. O uso de um filtro cinza deixa diversas cenas escuras, tão escuras que a bandeira da França parece ser preta, branca e vermelha em diversos momentos da história. Com tudo o filme parece um épico incompleto. Não pela qualidade do que chega aos cinemas, que é bastante satisfatória, mas por parecer que faltam trechos da história que a tornariam melhor. Talvez aquela versão do diretor realmente traga isso, mas o que temos no cinema é bom, mas falta um pouco para ser especial. Napoleão estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 23 de Novembro.

 

Crítica Rafa Gomes.

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