Foto: Ricardo Marajó/SMCS

Grávidas que receberam primeira dose da AstraZeneca vivem medo e incerteza

Preocupadas com o nº de contaminações e óbitos, elas lutam para receber a segunda dose com outro imunizante

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Do Sul21

Um grupo de mulheres grávidas e puérperas vive uma situação única em tempos de campanha para que a população
complete o esquema vacinal contra a covid-19: elas não podem receber a segunda dose da vacina por orientação do Ministério da Saúde. Imunizadas com a AstraZeneca quando não havia restrição de vacinas para esta parcela da população, a orientação é de que completem a vacinação apenas após o fim do puerpério – 45 dias após o parto. No caso de mulheres que receberam a vacina no início da gravidez ou engravidaram depois de receber o imunizante, o ciclo vacinal estará completo somente em 2022. Preocupadas com o alto número de contaminações e óbitos, elas pressionam os estados para que adotem a mesma medida de Ceará, Goiás e Rio de Janeiro: aplicação de segunda dose com outro imunizante. No Rio Grande do Sul, 6.402 gestantes receberam a primeira dose de AstraZeneca.

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“Não consigo curtir minha gravidez por medo de covid-19”, resume Sheila Vendruscolo. A analista contábil de 38 anos está na 20ª semana de gestação e tomou a primeira dose da vacina no início de maio. A segunda, estava agendada para o fim de julho, mas com a antecipação do intervalo entre as doses da vacina de AstraZeneca de 12 para 10 semanas, ela poderia ser imunizada nos próximos dias. “Meu parto está previsto para dezembro. E com a orientação atual, eu tomaria a segunda dose em 15 de janeiro. Estou com medo, estou exausta com essa situação, não consigo dormir direito”.

A antecipação da vacinação da AstraZeneca para todos os públicos ocorreu em decorrência da variante Delta de coronavírus. E a disseminação da cepa é um dos grandes receios das grávidas e puérperas: integrando um grupo de maior risco, não receberão imunização completa contra uma variante mais transmissível. Conforme o Boletim do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz de junho, a taxa de letalidade materna do coronavírus é 2,5 vezes maior do que a média da população em geral.

A jornalista Daniela Hilzendeger, 40 anos, está grávida de 28 semanas e também recebeu a primeira dose de AstraZeneca em maio. Ela e Sheila estão em um grupo que reúne dezenas de mulheres na mesma situação. Embasadas especialmente na recomendação da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), de que a segunda dose pode ser administrada com Pfizer ou Coronavac naquelas gestantes e puérperas que já receberam a primeira dose de AstraZeneca; e na decisão de estados como Rio de Janeiro, Ceará e Goiás que estão realizando esse procedimento, elas tentam acionar as secretarias de saúde. “Não nos deram atenção nenhuma. Já há estudos comprovando que o maior risco é não tomar as vacinas e que completar o ciclo com outra vacina é eficiente”, disse.

O Brasil é o país com maior número de mortes maternas por covid-19 no mundo. Especialistas apontam que a letalidade está relacionada à ausência de uma diretriz única para a vacinação. Desde o início do ano, a população foi incluída, retirada e somente recentemente recolocada entre os grupos prioritários para imunização, mesmo com altos índices de mortalidade. Atualmente, a orientação do Ministério da Saúde é de que as grávidas e puérperas recebam doses de vacinas que não contenham vetor viral – Pfizer e Coronavac – e não utilizem Jansen e AstraZeneca. “Só que nós fomos esquecidas. Estamos simplesmente ignoradas. No início, mandaram a gente tomar qualquer vacina e agora não nos dão solução. E no período de maior risco, no final da gravidez e no puerpério, é justamente onde a gente vai ficar mais desprotegida”, desabafa Sheila.

Procurada por representantes do movimento que luta para que as grávidas e puérperas possam receber a segunda dose da Pfizer no Estado, a deputada Luciana Genro (PSOL) enviou ofício à secretária da Saúde, Arita Bergmann, pedindo que tome as providências necessárias para incluir o grupo na próxima etapa de vacinação com o imunizante. “As gestantes e puérperas já estão passando por um momento de mudanças, se preparando para a chegada de um filho, e agora precisam lidar com esse estresse durante a gravidez. Com o alto número de mortes deste grupo no Brasil, não é aceitável que elas fiquem desamparadas e desprotegidas exatamente quando estão mais vulneráveis”, diz Luciana.

Por meio da Assessoria de Comunicação Social, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul informou que segue as indicações do Ministério da Saúde e “quanto à indicação de completar o esquema vacinal das gestantes que receberam a primeira dose com AstraZeneca estamos aguardando novas orientações do PNI (Plano Nacional de Imunização)”.