Da MetSul Meteorologia

Nuvens de maior desenvolvimento vertical que trazem trovoadas e chuva por natureza são responsáveis por reduzir a luminosidade e mesmo escurecer o céu em pleno dia, mas o que ocorreu nesta manhã de sexta-feira (2) em Porto Alegre é diferente e foge ao padrão normal do que costuma se verificar sob a presença de nuvens mais carregadas.

Porto Alegre escureceu por volta das 7h30m de hoje com ingresso de nebulosidade com maior desenvolvimento que trouxe chuva e raios, mas não foi só. Grande quantidade de fumaça de queimadas na Metade Norte do Rio Grande do Sul potencializou e aumentou a redução de luminosidade que normalmente já ocorreria, dando ao céu de Porto Alegre um aspecto alaranjado e marrom como visto no último mês de setembro na região de San Francisco, na Califórnia.

Mel Sincas

José Caldas

Fabiano Gutierres

Estas são imagens históricas, enfatiza a MetSul. Porto Alegre, que já teve cenas de neve ao céu encoberto por cinzas vulcânicas, jamais tinha testemunhado na memória que se tem uma coloração do céu tão distinta pela contribuição das queimadas como se viu no começo da manhã desta sexta-feira.

O satélite GOES-16, no seu canal infravermelho, registrava a presença de nuvens com maior desenvolvimento associadas ao avanço de uma frente fria sobre a área de Porto Alegre no começo da manhã e que foram responsáveis por provocar chuva com raios e trovoadas.

A imagem de satélite das oito da manhã de hoje do GOES-16 mostrava ainda um denso corredor de fumaça avançando da região da Amazônia até o Sul do Brasil e que no caminho era reforçado por muita fumaça do enorme número de queimadas que está se registrando no Centro-Oeste, na Bolívia, no Norte da Argentina e no Paraguai. Devido à onda de calor muito intensa com temperatura sem precedentes em muitas áreas do Paraguai, do Centro-Oeste e do Sudeste do Brasil, o número de queimadas explodiu nesta semana nestas regiões e a emissão de fumaça aumentou muito.

Imagens de satélite com sensor óptico de aerossóis mostravam uma grande densidade de fumaça desde ontem sobre a Metade Norte gaúcha, trazida por uma corrente de jato em baixos níveis que transportou ar quente para o Rio Grande do Sul com 40,1ºC em Santa Rosa na quinta-feira e 39,7ºC em São Luiz Gonzaga, a maior temperatura registrada em outubro na cidade das Missões desde que se iniciaram as medições em 1913.

O modelo de dispersão atmosférica de aerossóis do consórcio europeu Copernicus confirma na sua simulação a grande quantidade de fumaça sobre a área de Porto Alegre na manhã de hoje a partir do corredor que se inicia ainda na Amazônia e acaba reforçado pelos incêndios e queimadas no Centro-Oeste e em países vizinhos.

Com uma frente fria avançando pelo Rio Grande do Sul e a tendência de vento de Norte acelerar na dianteira do sistema frontal, pelo quadro pré-frontal houve uma enorme e incomum concentração de fumaça nas últimas horas na Metade Norte do Estado (clique aqui e leia mais), incluindo a região de Porto Alegre. Na manhã desta sexta-feira, mesmo sem nuvens de chuva, em razão da fumaça muito densa em suspensão na atmosfera, mal podia se observar o sol em Erechim, no Norte gaúcho.

Carmem Pasquali

Já na madrugada desta sexta-feira era possível perceber que o dia começava com uma grande concentração de fumaça na atmosfera. Normalmente, pelo princípio de espalhamento de Rayleigh, a lua fica amarelada e alaranjada quando se encontra baixa no céu, logo mais perto do horizonte. Ocorre que a lua estava muito amarela e alaranjada no alto do céu, indicando grande presença de material particulado em suspensão, no caso fumaça de queima de biomassa.

Daniel Fleck

O que Porto Alegre viu no começo da manhã desta sexta-feira foi parte o que ocorreu em São Paulo e parte o que se deu em San Francisco (EUA). Em 19 de agosto de 2019, o dia virou noite na capital paulista com a presença de nuvens carregadas e a escuridão agravada por muita fumaça vinda de incêndios na Bolívia e Amazônia.