Durante reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, sobre a vitória eleitoral de Luis Arce, do MAS, na Bolívia, exibida nesta terça-feira (20) o telejornal tratou de esconder a violência promovida por grupos milicianos contra a população e expôs apenas povos originários em cenas “de tensão”.

Apesar do jornalista Bruno Tavares ponderar que a tese da Organização dos Estados Americanos de que teria havido fraude no país foi desmontada por economistas e estatísticos internacionais, o telejornal tentou colocar em um mesmo patamar os protestos contra o golpe e as mobilizações golpistas. O termo golpe, inclusive, não foi utilizado.

Enquanto o repórter narrava que “era um momento de tensão política e social” em 2019, apenas cenas da reação dos povos originários foram exibidas. No máximo, apareciam as Forças Armadas. A mobilização violenta de grupos “cívicos” e de caráter milicianos – formados majoritariamente por pessoas brancas – não apareceu.

Com isso, uma das cenas mais marcantes do processo golpista, a queima de bandeiras Whipala – símbolo dos povos indígenas – ficou de fora da programação. Esse episódio – que não se limitou a apenas um – é visto como um dos mais importantes para expor o caráter racista do movimento golpista.

O telejornal também não citou o papel de grupos milicianos, a queima de casas e a humilhação pública de pessoas ligadas ao MAS e os massacres promovidos pós-golpe contra os povos originários. Todas essas questões estão fundamentadas pela Defensoria Pública da Bolívia em informe de 300 páginas.

As imagens escolhidas pelo telejornal para retratar as tensões de 2019 não corresponderam à realidade quando levada em conta a questão da proporcionalidade. A violência promovida por grupos opositores a Evo Morales, muito mais presente, não ficou explícita no que foi exibido na reportagem. (Revista Fórum)