Brasil de Fato

Assassinado por um policial militar e um segurança, o soldador João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, pai de quatro filhos, foi sepultado neste sábado (21) no cemitério São João, distante apenas 1,7 km do local onde foi esmurrado até a morte, o estacionamento do supermercado Carrefour, no bairro Passo D´Areia, zona Norte de Porto Alegre. “Beto”, seu apelido, teve o caixão coberto pela bandeira azul e branca do Esporte Clube São José, clube do qual era torcedor apaixonado. O sepultamento aconteceu entre orações, palmas, pedidos de justiça e gritos de indignação pelo assassinato de mais um homem negro.

Cerca de 50 pessoas acompanharam o cortejo no interior do cemitério, da capela mortuária ao local do sepultamento, em um ambiente de inconformidade e revolta com o acontecimento. “Aquilo foi premeditado. Com uma pessoa branca, de olhos azuis, não acontece essas coisas”, desabafou o pai da vítima, João Batista Rodrigues Freitas, ao Correio do Povo.

“Se fosse um branco, iriam espancar?”

Primo de “Beto”, Flávio Jones Flores avisou que a família tomará providências contra o Carrefour. “Não vai trazer de volta nunca. Mas impune o Carrefour não pode ficar”, declarou ao jornal. Em sintonia com o pai de “Beto”, acrescentou: “A pergunta principal que eu me fiz foi: se fosse uma pessoa branca ali, eles iriam espancar até a morte?”. E completou: “É uma pergunta que muita gente deve estar se fazendo. Acredito que não ia ter o mesmo destino”.

“Sair vivo do Carrefour é privilégio”

Carregando cartazes e faixas, milhares de pessoas protestaram na noite de sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, diante do supermercado aos gritos de “Carrefour assassino!” O protesto juntou militantes do movimento negro, apoiadores da luta antirracista e moradores do Passo D´Areia.

“Até quando você vai levar porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada? Chega!”, dizia um dos cartazes afixados na grade de ferro que cerca e protege o supermercado. “Sair vivo do Carrefour é privilégio”, “Fogo nos racistas”, “A carne mais barata do Carrefour é a carne negra” e “Vidas negras importam” eram outras palavras de ordem. “Assassinos”, acusava uma pichação no local.

Bombas e balas

Depois das 18 horas, a massa de manifestantes bloqueou a avenida Plínio Brasil Milano diante da loja que se manteve fechada todo o dia. Durante a noite, objetos foram jogados contra o prédio e surgiram alguns focos de incêndio no estacionamento sem maiores consequências. Houve confronto entre manifestantes e o batalhão de choque da Brigada Militar, que lançou bombas de gás lacrimogênio e disparou balas de borracha contra a multidão.

Neste sábado, a frente do supermercado amanheceu com as marcas do conflito: grades avariadas, portões arrancados, paredes chamuscadas, cacos de vidraças, pedaços de concreto, cartazes de despedida e lamento e buquês de flores.

Uma nova manifestação está sendo convocada para segunda-feira (23), às 18h, na frente do Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, zona Leste de Porto Alegre.

Dois homens brancos, o segurança Magno Braz Borges, 30, e o policial militar temporário Giovani Gaspar da Silva, 24, tiveram a prisão preventiva decretada. Serão acusados de homicídio triplamente qualificado. Silva, na condição de PM, não poderia estar trabalhando como segurança, de acordo com as regras da corporação. Segundo informações da polícia civil, mais duas pessoas, ambas do quadro de funcionários do supermercado ou da empresa de segurança, estariam implicadas no assassinato.