Porto Alegre tem dois padres que podem fazer exorcismo

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De tempos em tempos, a Igreja Católica lança uma manifestação aos seus religiosos espalhados pelo mundo sobre o exorcismo. É uma espécie de lembrete a todos eles a respeito de uma das tarefas que integram a gênese da tradição cristã. Por exemplo, um código de 1917 sugeria que cada diocese tivesse seu exorcista. O recado se repete agora, cem anos depois, com a publicação, pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), do livreto de 64 páginas “Exorcismos: Reflexões Teológicas e Orientações Pastorais”, que segue recomendação do Vaticano.

O exorcismo era praticado por Jesus Cristo, que autorizou a realização do ato por seus apóstolos. Serviu como uma espécie de peça de publicidade cristã nos tempos remotos – como uma legitimação do poder de Deus para atrair mais adeptos. No entanto, seu legado é obscuro, apesar da multiplicação de filmes com temática exorcista. Ainda na atualidade causa curiosidade e aquele medo que parece um ímã, atraindo atenção assim como os filmes de terror. Ao mesmo tempo, a Igreja não gosta de divulgar o assunto.

Bispo auxiliar de Porto Alegre, Leomar Brustolin é o indicado da Arquidiocese local para tratar do assunto. Segundo ele, há dois padres na capital com curso de exorcista no Vaticano, além de outros nomes que podem realizar o serviço. Brustolin afirma que a Igreja Católica não gosta de publicizar os exorcismos por diversos motivos. Um deles é simplório. Se as pessoas soubessem que há especialistas na Cúria Metropolitana, uma fila de gente se dizendo possuída pelo demônio se formaria rapidamente em frente ao prédio, diz, sorridente. Ele compara a ideia que se tem da função com as cenas de exorcismo que aparecem na TV, veiculadas por outras religiões. “Se fosse assim seria fácil. Exorcismo de verdade é muito mais complexo.”


Outro lado do malefício da exposição do ritual é religioso. A curiosidade gerada pelo mal beneficiaria somente ao próprio diabo. “Em um mundo com crise de fé muito intensa, o mal cresce”, lembra.

Por trás da recomendação de que as dioceses tenham seus exorcistas definidos está uma tentativa de limitar a sua atuação a religiosos de confiança, ainda que a Igreja não confirme com essas palavras. Com a medida, “se controla muito e se cuida”, reforça Brustolin. “Não queremos manipular o sagrado”, completa.

Possessões

Antropólogo, professor da UFRGS no Programa de Pós-graduação em Antropologia e estudioso do catolicismo, Carlos Alberto Steil concorda com a hipótese de freio a atos duvidosos de exorcismo, estabelecendo parâmetros para o que é uma possessão e quem pode exercer o serviço. “A preocupação é em definir e controlar a prática, especialmente a partir da renovação carismática, que se aproxima bastante do modelo da comunidade evangélica.”

Steil adentra a seara da interpretação cultural das possessões. “No contexto brasileiro, a possessão tem uma proximidade das religiões de matriz africana, onde também tem o êxtase, a possessão. Mas não é algo negativo. Acho que o que a Igreja define por possessão não é a mesma coisa que se entende na comunidade. É um campo muito nebuloso, movediço. Dentro da própria Igreja há o crescimento de rituais que os carismáticos chamam de libertação, onde tem uma presença do demônio.”

Teses recentes de doutorado apontam que o demônio é algo presente nas pessoas e que não se combate com exorcismo, pondera Steil. Já o bispo confia nos 2 mil anos de tradição da Igreja e sua adaptação aos tempos. Reconhece erros do passado, como a confusão entre possuídos pelo demônio e epiléticos. Por isso, hoje o exorcismo é a último opção em todos os casos. Ele confirma que os trabalhos de exorcismo são muito mais raros do que se pensa e não são feitos registros – ao menos não que se possa acessar publicamente.


Se para os mais céticos a Igreja parece íntima da paranormalidade quando segue dando plena importância ao exorcismo em pleno século 21, a instituição mostra que conhece bem a realidade. Para estes tempos de violência, desamor e descrença, Brustolin tem uma definição bastante terrena diante da posição óbvia da Igreja de combater o mal com fé. “Parece que estamos no abatedouro prestes a sermos abatidos.”

Cinema é fértil ao tratar o assunto

Móveis se movimentando sozinhos, cabeça girando 360o no pescoço. São cenas clássicas dos filmes de possessões pelo diabo, mas que parecem risíveis para especialistas em exorcismo como o bispo Leomar Brustolin. “Um móvel se movimentando não é nada. É muito pior”, explica.

O objetivo do demônio é enfrentar Jesus, e quem está no caminho – possuído – serve como instrumento. A briga é de cachorro grande. Os sintomas de uma possessão têm elementos básicos: a pessoa tomada pelo Mal fala uma língua que desconhece, tem ojeriza odiosa a tudo que é ligado a Cristo e, isso sim o mais terrível, a capacidade de entrar na consciência e inconsciência das pessoas. Conforme o bispo, o costume mais diabólico é contar aos quatro ventos, provavelmente com uma voz gravíssima e aterrorizante, todos os pecados, vícios e crimes secretos cometidos por aqueles que estão à volta do possuído. Por isso, pense bem antes de acompanhar um exorcismo.

O cinema que trata do tema é mais conhecido por “O Exorcista”, mas os títulos são inúmeros. “O Exorcismo de Emily Rose” é baseado em um caso real em que uma jovem que sofria de esquizofrenia é considerada possuída pelo diabo. O padre que a atendeu teria eliminado o uso dos remédios e a obrigado a jejuar, o que acabou levando-a à morte.

Uma produção considerada mais próxima do que ocorre em um trabalho de exorcismo é “O Ritual” (2011), com Anthony Hopkins.

Muito mudou nos 2 mil anos de exorcismos realizados pela Igreja. As antigas regras do ritual, datadas de 1614, foram atualizadas em 1998, e no Brasil o serviço passou a ser feito em português. Mas tem um impasse que não se resolveu até hoje, o que intriga religiosos e move discussões entre eles. Por que Deus permite que isso ocorra? É uma pergunta que transpõe os muros eclesiásticos e adere – ou não – à crença de cada um. (Band RS)