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Um dos mais respeitados especialistas em asma do mundo, o médico canadense Paul O’Byrne alerta que a grande maioria das pessoas com a doença, em especial nas suas formas mais leves, sofre desnecessariamente com a maneira como ela é controlada hoje. Isto porque, explica, o protocolo atual para tratamento destes casos privilegia inicialmente apenas o alívio dos sintomas — dificuldades respiratórias provocadas pelo estreitamento das vias aéreas —, sem atacar sua causa subjacente — a inflamação crônica destas vias, resultado de fatores genéticos ainda em grande parte desconhecidos que levam a uma reação exagerada a determinados “gatilhos” ambientais, como poeira e pólen.




Segundo O’Byrne, isso gera uma série de paradoxos que acaba por tornar estes pacientes “dependentes” em demasiado do alívio trazido pelas “bombinhas” carregadas de broncodilatadores, que são levadas para todo lado. Ao mesmo tempo, os asmáticos negligenciam ou mesmo ignoram a importância de também seguirem o eventual tratamento com substâncias anti-inflamatórias. Com isso, ficam sujeitos a ocasionais ataques muito mais severos do que deveriam ter, além de verem piorar sua qualidade de vida.

“As questões que estamos levantando são relacionadas principalmente aos casos mais leves de asma, que abrangem a maior parte dos pacientes, algo entre 60% a 70% deles”, diz O’Byrne, também professor da Universidade McMaster, no Canadá, em entrevista ao jornal O Globo.

“Levantamentos nacionais feitos em diversos países mostram que, quando estes pacientes são avaliados, a maioria não está com a asma bem controlada. Ficamos pensando o porquê disso, qual razão de os pacientes aceitarem o fato de sua asma, embora possa ser bem controlada, não estar bem controlada. E as respostas que estamos encontrando consistentemente são que estes pacientes de fato estão sujeitos a ataques muito severos de asma, uma exacerbação da sua asma, sob risco até de morte, mas não têm a causa subjacente de sua condição, a inflamação, tratada, por serem considerados como casos leves.”




Diante disso, O’Byrne e colegas estão propondo a inclusão de substâncias anti-inflamatórias nos inaladores receitados para os pacientes diagnosticados com asma já no primeiro passo do tratamento. Dessa forma, ao usarem o produto para alívio das crises, também receberão pequenas doses da medicação contra a causa subjacente de seu problema. O especialista acredita que será possível não só prevenir que muitas vítimas da asma piorem como evitar que pensem que a gestão de sua doença se resume a interromper as crises. Isso faz com que, em geral, apenas 30% deles usem as “bombinhas” com anti-inflamatórios inaláveis conforme receitadas pelos médicos a partir do segundo passo dos protocolos atuais para o controle da condição.

“Já sabemos que pacientes com casos moderados a severos de asma, que usam inaladores combinados com medicações de alívio e anti-inflamatórias, têm um risco menor de exacerbação de sua condição e de ataques mais severos”, lembra. “Então, a questão agora é se estes inaladores combinados também devem ser usados por pessoas com formas mais leves de asma. Nossa ideia é que, se usarmos estes inaladores combinados em casos mais leves de asma, podemos reduzir os riscos de uma exacerbação severa da condição que leve a hospitalizações e mesmo à morte.”




O’Byrne conta que, apesar dos potenciais benefícios, a mudança no protocolo de tratamento inicial da asma, e a consequente alteração na formulação dos inaladores, depende de pesquisas que confirmem que isso de fato vai ajudar os pacientes.

De acordo com ele, dois amplos estudos para investigar a questão, cada um com a participação de cerca de 4 mil pessoas, já tiveram sua fase de coleta de dados completada e deverão ser publicados já no ano que vem. Um dos responsáveis pelas pesquisas, ele adianta que análises preliminares indicam que os resultados são “positivos”, o que deverá levar ao estabelecimento de novas recomendações neste sentido “em breve”. (O Sul)