Mortes na Maria da Conceição têm ligação com guerra do tráfico em Porto Alegre

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Polícia Civil concluiu pelo menos cinco inquéritos policiais instaurados para apurar homicídios ocorridos na Vila Maria da Conceição, zona Leste de Porto Alegre, entre os dias 23 de agosto e 16 de setembro de 2017. Conforme o titular da 1ª Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (1ª DPHPP), delegado Rodrigo Reis, as mortes estão ligadas à uma “guerra particular” entre diferentes quadrilhas que buscaram controlar os pontos de venda de drogas na região.

Os investigadores realizaram um mapeamento das diferentes áreas da Vila e das funções exercidas pelos criminosos, com o objetivo principal de identificar as lideranças que ordenaram os crimes praticados naquele período. A Conceição já foi considerada a localidade mais rentável para o tráfico de drogas da Capital, o que de tempos em tempos, conforme a Polícia Civil, reflete na intensa disputa pelo controle da distribuição e comercialização de entorpecentes.




Foi constatado que a Vila está dividida em quatro áreas principais, conhecidas como: Pedreira, Baixada, Paulino e Paineira que, até 2010, eram lideradas pelo criminoso conhecido Paulo Ricardo Santos da Silva, condenado a mais de 28 anos de prisão em regime fechado. Após a prisão de Paulão, segundo a investigação, a região vem passando por disputas sangrentas entre diferentes grupos criminosos.

As diferentes lideranças que se alternaram na Vila Maria da Conceição, controlando ao longo dos anos a distribuição e comercialização de drogas, buscaram pessoas da vila ou de fora dela para realizar diferentes funções organizando a atividade criminosa. Durante a investigação, foram identificados os envolvidos nas mais diversas atividades do tráfico, como olheiros, seguranças da boca, vapozeiros e gerentes.

Segundo a 1ª DPHPP, durante 2016 o conflito se deu basicamente entre os criminosos “Tubarão”, que se encontra foragido da Justiça e “Quadrado”, preso em 4 de dezembro de 2017, que dominavam a área da Pedreira; contra o criminoso conhecido como “Colete”, morto em 23 de agosto de 2017, que dominava a área da Baixada. Em dezembro de 2016, Tubarão e Quadrado foram expulsos da Conceição, quando foi criado um acordo entre os criminosos Colete, “Xú”, “Isbile”, “Peixe”, “Nego André” e seus respectivos gerentes.

A facção comandada por Nego André apoiou Colete e Isbile na disputa contra Tubarão e Quadrado. A parceria, de acordo com a Polícia Civil, ficou evidente não só pelo fato de pessoas oriundas do bairro Santa Teresa terem sido abordadas na Conceição, como também pelo fato de Thaylor Ariel Ferreira Trindade, filho de Colete, ter sido morto no bairro Santa Teresa em maio de 2016, enquanto frequentava uma festa.

No entanto, o pacto entre as lideranças que perdurou de dezembro de 2016 a agosto de 2017 passou a se desfazer. As informações coletadas dão conta de três problemas principais. Um deles é o fato de Colete ter empregado, de forma excessiva, os valores acumulados com o tráfico de drogas na promoção de festas e bailes funk ao invés de investir no tráfico; o segundo fato, também ligado ao Colete, trata da forma agressiva com que o mesmo costumava lidar com gerentes do tráfico da região e seus familiares; o terceiro foi a ambição de Nego André e dos irmãos conhecidos como “Inchado” e “Wawá”, de tomar os pontos de venda de drogas.




Em 23 de agosto deste ano, Colete foi morto enquanto visitava familiares na Conceição. Logo após a morte, houve movimentação de presos na Cadeia Pública de Porto Alegre (antigo Presídio Central), especificamente uma saída em massa de cerca de 160 apenados que abandonaram a 2ª Galeria do Pavilhão A. A galeria, antes da morte de Colete, abrigava membros de diferentes facções que romperam ligação em razão do ocorrido. No local, permaneceram apenados ligados ao Isbile e Colete, os demais foram direcionados a outras galerias nas dependências da Cadeia Pública ou para outras penitenciárias no Estado. Os crimes, cujos inquéritos foram concluídos, têm ligação com toda esta trajetória.

Crimes investigados

Em 23 de agosto foi morto João Carlos da Silva Trindade, conhecido como “Colete”, uma das lideranças do tráfico na Conceição. O filho de Colete ficou ferido, mas sobreviveu ao atentado. A Polícia Civil identificou cinco mandantes: Nego André, 34 anos, que está preso; Inchado, 26 anos, morto; Wawá, 24 anos, preso; Xú, 47 anos, em liberdade e Vini, 28 anos, em liberdade. Todos foram indiciados, exceto Inchado, morto em 16 de dezembro.

Em 28 de agosto, Alexandre Vieira da Silva foi assassinado e Valéria Campolini Lara ficou ferida, após serem atingidos por disparos de arma de fogo na rua Irmã Nely. A Polícia Civil identificou cinco mandantes: Nego André, Inchado, Wawá, Xú e Vini. Todos foram indiciados.

No dia 1º de setembro, Denis Raphael Guterres foi morto e Lúcio André da Silva Cassiano e Taylisson Ryan Pereira da Silva Cassiano,ficaram feridos, também na rua Irmã Nely. Nos dois casos, testemunhas visualizaram dois veículos, um Volkswagen Bora de cor prata e um táxi Ford Ecosport transportando os autores. Os dois veículos foram apreendidos. Foram identificados cinco mandantes e cinco executores: Nego André, Inchado, Wawá, Xú, Vini e outros cinco que não tiveram a identificação revelada. Quatro deles estão presos, apenas um está em liberdade. Todos foram indiciados.




Em 4 de setembro, Adão Adílson Ferreira da Silva foi morto e Ariana Ferreira da Silva, Everton Gereinger da Costa e Eloir de Souza Ferreira ficaram feridos, na rua Paulino Azurenha, esquina com a rua Irmã Nely. Foram identificados dois mandantes e três executores: Isbile, 37 anos, preso; Veio, 30 anos, preso e os três executores, que não tiveram as identidades reveladas, dois presos e um adolescente infrator. Todos adultos foram indiciados por um homicídio consumado e três homicídios tentados. Todos foram indiciados.

Em 16 de setembro, Sabrine Juliane Bittencourt da Luz e Mateus da Silveira Rodrigueiro, foram assassinados na Travessa Caxias, número zero, bairro Partenon. Foram identificados cinco mandantes: Nego André, Inchado, Wawá, Xú e Vini. Todos foram indiciados.

Conclusões

As investigações concluíram que os homicídios praticados nos dias 23 e 28 de agosto, 1º e 16 de setembro, foram executados a mando de Nego André, Inchado, Wawá, Xú e Vini, todos ocorridos na área da Baixada. Conforme a Polícia Civil, os mandantes, que passaram a ter maior importância e influência após a morte de Colete, tinham a intenção de assassinar as pessoas para aterrorizar a comunidade e tomar as áreas da Baixada e da Pedreira, que eram lideradas por Colete e Isbile.

Já o homicídio ocorrido no dia 4 de setembro foi executado a mando de Isbile e Veio, que buscaram eliminar Adão, pois ele estaria atuando a favor de Nego André após a morte de Colete, a fim de facilitar a conquista das áreas sob influência de Isbile.




O conflito perdurou, de forma aguda, até 24 de setembro, quando informações colhidas pelos investigadores na Vila Maria da Conceição através de pessoas que não quiseram se identificar por temer represálias, mostravam que, naquele final de semana, a organização de Nego André, Inchado, Wawá, Xú e Vini, conseguiu expulsar os últimos moradores e criminosos ligados a Colete e Isbile da Vila, tomando conta de toda a região. Desde então os conflitos armados apaziguaram.

Os inquéritos policiais foram remetidos à Justiça nesta segunda-feira, com os respectivos indiciamentos e com o pedido de prisão preventiva de todos os mandantes e executores dos delitos pois, conforme o delegado Rodrigo Reis, todos representam perigo à ordem pública. (Correio do Povo)