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O alto índice de reprovação de deputados e senadores, constatado por pesquisa Datafolha divulgada na quarta-feira, não significa garantia de renovação profunda do Parlamento na próxima eleição. Fatores que vão além da revolta com a classe política podem ter peso maior nas urnas em 2018, na avaliação de especialistas.

O novo modelo de financiamento das campanhas, aprovado este ano, é um deles. Para o cientista político do Departamento de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Eduardo Grin, a criação do fundo eleitoral com recursos públicos para 2018 irá favorecer os caciques partidários e quem já tem mandato.




“Os números da pesquisa poderiam nos levar a concluir que a renovação dos parlamentares em 2018 tende a ser a maior da nossa história. Mas uma análise mais cuidadosa aponta para o caminho oposto. É fácil supor que os mais poderosos nas legendas, em geral, aqueles que detêm cargo público, terão privilégio na repartição do fundo eleitoral que será feito pelo partidos. Com mais dinheiro, a chance de renovar seus mandatos é grande”, afirmou.

A pesquisa, realizada em 29 e 30 de novembro, constatou que o índice dos que consideram ruim ou péssimo o trabalho dos parlamentares é de 60%, o pior desde que a série começou. A maior reprovação, até então, havia sido registrada em 1993, com 56%. A aprovação este ano caiu para 5%. Nos últimos 25 anos, período em que a avaliação foi feita, apenas no final do primeiro ano de governo Lula, o Datafolha constatou que a satisfação do eleitorado com o Congresso superava a avaliação negativa.

Outro fator que especialistas consideram como obstáculo para uma renovação mais vigorosa do Congresso é uma esperada alta taxa de abstenção de eleitores na próxima eleição, em razão da desilusão com a política.




“Minha intuição é que a abstenção pode explodir na próxima eleição. Se 30% ou 40% dos eleitores não votarem, serão favorecidos os políticos que têm curral (eleitoral), com mandato e aparelhagem para garantir os seus votos”, avalia o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

O Brasil já é um dos países com maiores taxas de renovação do Congresso. Em 2014, o índice de renovação foi de 43,7%. O problema é que essa renovação nem sempre tem se traduzido em melhora da qualidade do parlamento.

“Trocam os nomes, mas a filosofia permanece a mesma. A forma de recrutamento é a mesma”, acrescenta Melo.

Para o cientista político José Álvaro Moisés, professor da USP (Universidade de São Paulo), a rejeição tem relação com o fato de o Congresso não cumprir o seu papel definido na Constituição: “Nesse último período, ficou mais claro para a população a desconexão do Congresso em relação às demandas da sociedade”. (O Sul)