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Com uma simples amostra de cinco mililitros de sangue, um exame foi capaz de identificar qual o risco de uma mulher que já teve câncer de mama sofrer da doença novamente. Um estudo divulgado nesta sexta-feira em um simpósio nos Estados Unidos revelou que um teste de biópsia líquida, que consegue rastrear células tumorais dispersas no sangue, pode ser usado para identificar quais pacientes desse tipo de câncer têm mais probabilidade de ter uma recaída, antes mesmo que apareçam novos nódulos ou qualquer outro sinal.

A grande vantagem, explicaram os especialistas ao jornal O Globo, é ajudar a definir quem precisa de um tratamento mais prolongado e quem podem ser poupado de um processo desgastante e caro.




Muitas pacientes chegam a fazer terapia para tratar o câncer de mama e prevenir a reincidência por dez anos. Durante esse período, os possíveis efeitos colaterais são extensos: aumento do risco de ter câncer de endométrio; trombose; aumento de peso; osteoporose; dores articulares, entre outros. Por isso, o teste é considerado promissor ao permitir identificar aquelas mulheres que não precisam se expor a esses riscos.

Resultados preliminares

Os resultados da pesquisa ainda são preliminares, mas este foi o maior experimento deste tipo até hoje, envolvendo 547 pacientes. Todas elas haviam passado por cirurgia e quimioterapia, e, em seguida, trataram-se por cinco anos com remédios bloqueadores hormonais.

Já houve um tempo em que o tratamento dessas pacientes terminaria aí, após esses cinco anos. No entanto, hoje recomenda-se que elas estendam o tratamento por mais cinco, completando uma década de administração de medicamentos. Isso porque pesquisas recentes têm mostrado que aumentar o tempo de terapia é mais seguro para parte expressiva das pacientes — mas não para todas. O grande problema é saber para quem, exatamente. E é esta questão que o teste promete responder.




No estudo, assim que completaram cinco anos de tratamento hormonal, as mulheres que faziam parte da amostra selecionada se submeteram à biopsia líquida e, a partir daí, foram acompanhadas por dois anos pelos pesquisadores no Centro de Cuidados com Câncer de Montefiore Einstein, em Nova York (EUA).

Entre as pacientes cuja biopsia deu negativo, a chance de não ter recaída em dois anos foi de 98%. Já as que receberam resultado positivo apresentaram risco 22 vezes maior de a doença voltar ou de dar metástase — quando o tumor surge em outro órgão.

“O teste poderia fornecer um sinal de alerta precoce para algumas mulheres de que o câncer está retornando”, diz o pesquisador líder do estudo, Joseph Sparano.

O exame, chamado de CellSearch, já é comercializado nos Estados Unidos, mas ainda custa caro: entre 600 dólares e 900 dólares por amostra de sangue, algo entre R$ 2 mil e R$ 3 mil.




O Brasil ainda não realiza a biopsia líquida — exame que, apesar do nome, utiliza apenas sangue, e não parte do próprio tumor. No entanto, especialistas acreditam que ela não deve demorar a chegar ao país.

“É provável que em dois anos tenhamos no Brasil essa tecnologia, que não é tão complexa”, diz o oncologista clínico Gilberto Amorim, do Grupo Oncologia D’Or.

Fim da ‘encruzilhada’

Segundo Amorim, chegar ao término dos cinco anos de tratamento é como chegar a uma encruzilhada: os exames amplamente disponíveis hoje não permitem saber com precisão em quais casos é melhor continuar para evitar a possibilidade de volta do câncer.




“Infelizmente, às vezes, acabamos forçando a barra e dando às pacientes remédios que elas podem não precisar”, afirma. “Por outro lado, se paramos a terapia e pouco tempo depois a doença retorna, ficamos com a sensação de que não fizemos tudo o que podíamos. É uma decisão difícil, e por isso esse teste é tão genial.”

O presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, Antônio Luiz Frasson, também considera que os resultados do estudo mostram um avanço importante, mas ressalta que é necessário produzir novas pesquisas com um número maior de pacientes e por um período mais extenso, para que as conclusões sejam validadas.

“O estudo é animador, mas é experimental. Acompanhar por dois anos, quando se trata de câncer de mama, é pouco. Temos que pesquisar mais”, avalia ele.