Campanha que arrecadava ingressos para crianças negras irem ao cinema é atacada nas redes sociais – Porto Alegre 24 horas

Campanha que arrecadava ingressos para crianças negras irem ao cinema é atacada nas redes sociais

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Por Annie Castro / Sul21

Em Porto Alegre, mais de 200 crianças do condomínio Princesa Isabel e da região da Vila Cruzeiro ainda não sabem, mas em breve estarão carregando pipocas e refrigerantes enquanto entram em uma sala de cinema para assistir ao filme Pantera Negra. Isso acontecerá devido a uma campanha que arrecadou ingressos para crianças negras de 8 a 14 anos, criada pela estudante de pedagogia Vitória Sant’Anna Silva, de 22 anos.

O plano inicial era arrecadar um valor para levar 30 crianças negras do condomínio Princesa Isabel, onde Vitória vive, ao cinema. “Moro em uma comunidade que é muito criminalizada. Mesmo morando no centro da cidade, perto dos parques Redenção e Marinha, essas crianças não vão a espaços culturais e de lazer. Eu queria proporcionar isso para elas”, conta. Além delas, jovens da região da Vila Cruzeiro, onde a estudante trabalha como professora, também serão beneficiados com os ingressos arrecadados.




Em 1994, a mãe de Vitória, a líder comunitária Maria Lúcia Sant’Anna, levou crianças do condomínio ao cinema para assistir a animação Rei Leão. Na semana passada, quase 24 anos depois, a estudante teve uma ideia parecida. Enquanto acompanhava a história do super-herói Pantera Negra, Vitória lembrou das crianças da comunidade e saiu da sala de cinema querendo que elas também tivessem a oportunidade de assistir ao filme, que é a primeira superprodução da Marvel Studios com um elenco majoritariamente formado por pessoas negras. Para Vitória, é importante que as crianças tenham acesso ao filme pois mesmo sendo uma ficção, “ele aborda muitas questões que mostram a estética negra e fala da África de uma forma positiva e não estereotipada”.

A estudante Vitória fez um post no Facebook sugerindo a doação de ingressos para crianças negras. Foto: Reprodução/Facebook

Com essa ideia em mente, Vitória resolveu fazer uma publicação no Facebook com a seguinte sugestão: “Doe um ingresso para uma criança negra ter novas referências de super-heróis e assistir o filme no cinema. Partiu?”. No dia seguinte, muitas pessoas haviam comentado o post afirmando que doariam os ingressos. Esse retorno positivo motivou Vitória a criar outra publicação explicando a campanha, com um passo a passo de como fazer para colaborar. Na postagem, ela destacou que o valor arrecadado além de custear as entradas, também será utilizado na compra de pipocas, refrigerantes, e para o transporte das crianças até o cinema. Com o grande interesse das pessoas em colaborar com a campanha, outras três mulheres se juntaram à iniciativa: a pedagoga Mariana Boeno, a educadora social Desirée Gomes e a graduanda em biblioteconomia Cristina França.




Porém, na última terça-feira (20), a publicação de Vitória, que já estava com mais de 800 compartilhamentos, 300 comentários e mil curtidas, foi excluída pelo Facebook por estar, supostamente, “violando os termos da comunidade”. Outra publicação que denunciava a situação também foi apagada pelo site e Vitória teve sua conta bloqueada por 24 horas. Na quarta-feira (21), ela recebeu uma mensagem informando que um membro da equipe do Facebook havia apagado acidentalmente as publicações de Vitória e que as postagens seriam restauradas. Ao ser procurada pelo Sul21, a assessoria do Facebook no Brasil afirmou que “a remoção ocorreu por um erro interno” e que sentiam pelo ocorrido. Porém, mesmo antes de as publicações serem excluídas, a campanha de arrecadação de ingressos estava sendo atacada por comentários que a acusavam de ser racista, já que era voltada apenas para crianças negras. Alguns usuários também questionavam por que crianças brancas, na mesma situação que as outras, não seriam beneficiadas.

Segundo Vitória, a campanha é especificamente para crianças negras pois elas são as mais afetadas pela falta de representatividade. “Mesmo sendo pobre, a criança branca sempre vai ter mais chances na nossa sociedade. Além disso, as crianças crescem com o imaginário de um anjo branco, de um jesus cristo branco, de princesas loiras e brancas. É muito mais fácil que as crianças brancas sejam confiantes e tenham autoestima. Os jovens negros já são mais tímidos, estão em uma crise de identidade porque ser negro é feio, o negro é o bandido, é sempre feito de chacota.”, afirma. A estudante ainda acredita que levar crianças negras para assistir a um filme onde atores negros executam papéis que não são estereotipados ou marginalizados, como assaltantes, traficantes ou até mesmo apenas coadjuvantes, pode “gerar um impacto muito grande na forma como essas crianças que estão crescendo se enxergam”.




“A questão de levar as crianças para irem ao cinema não é só sobre ver o filme de super-herói. Queremos que com essa ida elas possam se sentirem felizes e mais pertencentes à sociedade que vivemos. O shopping é um espaço muito opressor, principalmente para as crianças negras. A população negra ainda é seguida quando vai em shoppings e lojas. Queremos levar elas ao cinema para que consigam estar nesse espaço que muitas vezes é negado para as crianças negras de periferia”, explica.

O ataque e as acusações de racismo à campanha de arrecadação e às publicações de Vitória não são algo inédito. Na semana passada, a pós-graduanda em Direito Público e ativista do Movimento Negro, Winnie Bueno, foi acusada de estar praticando “racismo reverso” e teve uma publicação denunciada no Facebook. Ela também teve sua conta suspensa temporariamente. O post em questão falava sobre o sucesso do enredo da Paraíso do Tuiuti, que desfilou no carnaval do Rio de Janeiro no último dia 11:




“De todas as coisas relevantes que a Paraíso do Tuiuti fez nesse carnaval ouso dizer que uma das mais importantes foi escancarar que o mito da democracia racial segue vigente e fortíssimo nessas terras brasilis! O daltonismo racial da população brasileira e, especialmente da esquerda, de quem eu ingenuamente espero o minimo de noção, é constrangedor. Como bem dizia minha bisavó: branco é igual bosta de boi, mesmo seca por fora se tu pisar vai te lambuzar de merda inteiro.”

Para Winnie, os ataques que ela e Vitória sofreram são casos de racismo. “É racismo desdobrado em uma outra linguagem que não é a direta, que não consiste em discriminação racial direta, mas consiste em estruturas, linguagem, códigos e algoritmos”, afirma. Ainda para ela, a política do Facebook estaria auxiliando esses episódios. Apesar dos ataques, a campanha de arrecadação de ingressos continuou e, graças às doações, 210 crianças negras poderão ir ao cinema conhecer a história do príncipe T’Challa, do reino de Wakanda.



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