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Luciano Velleda | Sul21

Violência política de gênero. A política como o lugar mais patriarcal e machista da sociedade brasileira. Ambas ideias emergem na campanha à Prefeitura de Porto Alegre às vésperas do primeiro turno, no próximo domingo (15). Embora não sejam novas, ganharam centralidade após o debate entre os candidatos, realizado pela rádio Gaúcha, na noite de quinta-feira (12). Durante todo o encontro, o candidato Rodrigo Maroni (PROS) se dedicou apenas a agredir e ameaçar a candidata Manuela D’Ávila (PCdoB), líder das pesquisas eleitorais.

O objetivo, na análise da filósofa e escritora Marcia Tiburi, é usar o discurso misógino como tática política no processo eleitoral para desestabilizar a adversária. Xingamentos, ofensas e ameaças são as armas.

“A Manuela vem sendo alvo de ataque há muito tempo. A campanha à presidência da República foi exemplo disso e agora vem se repetindo. O que acontece com a Manuela, acontece com várias outras mulheres, porém ela tem algo a mais: ela se destaca muito. Então as mulheres recebem ataques à medida do seu capital na sociedade do espetáculo e na sociedade do espetáculo político”, pondera Marcia. Ela avalia que o mesmo aconteceu com a ex-presidenta Dilma Rouseff, cujos ataques eram proporcionais a sua importância.

A filósofa entende que os homens têm uma relação narcisista com a política. A política, por essa perspectiva, é o ambiente onde eles mantêm espaços de poder e bajulação. Um poder infantilizado, diz ela. “A Manuela fere muito o narcisismo desses caras e está explicado que tenha ferido o narcisismo do ex-namorado.” Marcia, no entanto, faz um alerta: homens feridos nesse nível podem se tornar assassinos, o roteiro clássico do feminicídio. “O sujeito rejeitado reage com violência. Ele usou, no nível político, os clichês típicos misóginos contra a mulher em todos os tempos, tentando rebaixá-la a vagabunda, mentirosa, traidora, louca, incompetente. Com a Dilma foi a mesma coisa.”

O debate em que Maroni se dedicou a agredir Manuela ao invés de apresentar suas propostas para a cidade, também chamou atenção por outro aspecto: os outros candidatos se calaram. Apenas a candidata Fernanda Melchionna (Psol) se posicionou para defender sua adversária. Uma postura nada surpreendente para Marcia Tiburi. “Todos eles fazem parte dos privilégios do machismo estrutural e a Fernanda Melchionna fez um papel maravilhoso. Fico feliz que ela tenha se manifestado porque isso é coerente com a postura dela. Infelizmente, também é coerente com a postura dos machistas os que se calaram e consentiram com o que o Maroni fez”, afirma.

Patriarcado ameaçado

A professora Céli Pinto, docente aposentada do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avalia que a política é o local onde as mulheres têm mais dificuldade em impor sua presença. O ambiente político, diz ela, é o mais patriarcal e machista porque é o lugar onde o poder é o personagem principal.

Por isso, o silêncio dos candidatos homens também não surpreendeu a professora emérita da URFGS. Pelo histórico conservador e patriarcal da sociedade brasileira, Céli diz que os partidos políticos de direita e de esquerda tendem a ter muito dificuldade em aceitar mulheres. “A política é o último baluarte do poder patriarcal intocado no Brasil. Elas ameaçam o poder dos homens nos partidos. Elas são realmente discriminadas e quando chegam numa disputa eleitoral, não há limite em usar o poder de ser homem, e homem branco, principalmente, para arrasar uma mulher que está querendo e conseguindo ser a candidata mais votada no primeiro turno.”

Numa sociedade dominada por um pacto patriarcal e racializado, as vitórias obtidas pelas mulheres brasileiras nos últimos cinquenta anos representam derrotas do patriarcado. A professora aposentada da UFRGS destaca que nunca alguma vitória foi dada pelo patriarcado ou alguma estrutura patriarcal do Brasil achou que era razoável as mulheres entrarem. “Elas entraram porque forçaram a entrada”, afirma Céli. Como exemplo, ela cita a entrada das mulheres no judiciário, que só começou a acontecer quando houve concurso público.

O atual ambiente “protofascista” do País, ela avalia, tem reforçado a necessidade de reestruturar o conservadorismo. A professora considera que o Brasil vive um momento “muito vulgar” na política, a começar pelo presidente da República. Para além disso, entretanto, destaca que a violência e a discriminação contra a mulher na política é histórica. “Não acho que as mulheres vão deixar de se candidatar porque os homens estão dizendo barbaridades delas. Os homens dizem barbaridades contra elas há muito tempo, e não é só dizer, matam as mulheres há muito tempo”, acredita Céli.

No Brasil de Bolsonaro, a filósofa e escritora Marcia Tiburi analisa que a violência tem sido usada como capital político, integrando a “performance” de candidatos para angariar voto. “Os machistas não têm escrúpulos, assim como os fascistas”, define.

Apesar do cenário violento em que o País está mergulhado, a filósofa ressalta que não são todos os homens que têm esse tipo de comportamento e, assim, se as mulheres persistirem, será possível passar por esse “estremecimento social dos gêneros” para alcançar outro patamar de convivência.

“Certamente, as mulheres não vão recuar, e os homens emocionalmente frágeis precisam se reestruturar, porque vão ter que conviver com mulheres que já não aceitam esse tipo de postura. O problema é que os homens não sabem ver suas fragilidades sem partir pra violência, é muito raro. A violência é um aspecto fundante da masculinidade. Mas a onda do feminismo não vai ter recuo, as mulheres não vão desistir”, enfatiza. “É bom que os homens encontrem um caminho para eles, porque essa sociedade não é mais a sociedade que eles construíram.”