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Luciano Velleda | Sul21

A análise dos dados da contaminação pelo novo coronavírus no Rio Grande do Sul, entre os dias 4 de outubro e 14 de dezembro, mostra que a média móvel de novos casos por dia, divididos em períodos de 14 dias, subiu de 2 mil pessoas infectadas para 4 mil pessoas infectadas por dia no estado. Em relação às mortes, a média móvel de 14 dias no mesmo período revela o aumento de 37 para 62 óbitos por dia. “Não precisa lotar UTIs para ver que a epidemia está em crescimento”, sentencia Alexandre Zavascki, professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Apesar de inúmeros alertas de pesquisadores e médicos desde meados de outubro, as medidas adotadas pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Porto Alegre foram insuficientes para conter a disseminação do vírus. No começo de novembro, a Rede Análise Covid-19, grupo que reúne mais de 70 cientistas, divulgou carta aberta à Prefeitura em que apontava a tendência de crescimento do contágio na Capital. Naquele momento, se medidas fossem adotadas, seria possível frear o aumento da contaminação e vidas poderiam ser salvas. Revoltado, o secretário-adjunto da Saúde, Natan Katz, discordou do alerta e chegou a bater boca com os cientistas em rede social.

Cerca de 45 dias depois de o secretário-adjunto da Saúde negar que houvesse indícios de aumento de casos, Porto Alegre tem o sistema de saúde novamente sob pressão, com altíssimos índices de ocupação de leitos de UTIs. Nessa terça-feira (15), são 300 pessoas confirmadas com covid-19 em UTIs da Capital e 22 suspeitas. A taxa de lotação das UTIs está em 89,6%. Alguns hospitais referencias para tratamento da doença, entretanto, estão no limite, como o Moinhos de Vento, há vários dias com 100% de ocupação na UTI, o Ernesto Dornelles também com 100%, o Mãe de Deus (94,9%), Hospital Conceição (97,3%), Hospital de Clínicas (90,1%) e o Hospital São Lucas (91,5%).

Diante do aumento de pessoas internadas, a principal ação dos governos, tanto em âmbito estadual como municipal, tem sido a ampliação do número de leitos. A medida, embora importante para evitar o colapso do sistema de saúde, é inócua no que diz respeito a evitar a disseminação do vírus.

Nesta terça-feira (15), por exemplo, a Secretaria Estadual da Saúde anunciou ter colocado em operação mais 117 leitos de UTI nos últimos 20 dias, sendo 60 leitos novos e 57 reativados. O governo de Eduardo Leite informa que serão abertos, nas próximas semanas, mais 58 leitos de UTI adulto para atender pacientes com coronavírus pelo SUS, em hospitais de diferentes regiões do Estado.

Em seu perfil no Twitter, Zavascki, que também é chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Moinhos de Vento, é taxativo ao dizer que abrir novos leitos “não é ação de combate à pandemia”, e é uma “medida adotada porque a epidemia não foi controlada no seu local de origem, a comunidade. Transmissão alta e leito vago nunca foi nem será controle”, afirmou.

O resultado prático da falta de controle da propagação do vírus, além do aumento de mortes e de pessoas contaminadas, é a necessidade de alguns hospitais de Porto Alegre restringirem o atendimento de pessoas com quadros leves da doença ou em situação de não urgência.

“É preciso assegurar o atendimento das pessoas. Amontoar em hospitais não é a solução. Você limita o leve para poder concentrar forças no grave”, explica Zavascki.

Veja a situação de alguns hospitais da Capital:

Hospital de Clínicas

Considerando o aumento de pacientes confirmados e suspeitos de covid-19, o hospital adotou medidas de restrição internas desde o dia 30 de novembro. Atividades que ainda não haviam sido retomadas continuarão suspensas e o Serviço de Ambulatório está atuando, segundo a instituição, em sintonia com outros serviços médicos para focar ainda mais em teleconsultas.

“Os novos agendamentos de cirurgias foram bloqueados e, nos próximos dias, os procedimentos já agendados serão reavaliados, mantendo-se os que não possam ser adiados. O Clínicas trabalha também para aumentar o número de leitos dedicados à enfermaria covid-19 e busca reorganizar equipes para reforçar os atendimentos covid”, informa o hospital.

“O HCPA reafirma que a ação de toda sociedade, cumprindo as medidas de distanciamento, higiene de mãos e uso de máscaras, é fundamental para evitar a circulação do vírus”, completa.

Hospital Moinhos de Vento

Com 100% de ocupação na UTI, o Hospital Moinhos de Vento completou, no último fim de semana, um mês com restrições de atendimento a casos de suspeita de infecção por coronavírus com sintomas leves ou quadro de menor gravidade. A instituição enfatiza que, mesmo diante das medidas adotadas pelos órgãos de saúde e autoridades sanitárias, os índices de novos casos de covid-19 registrados por dia no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, nas últimas semanas, são os mais altos desde o início da pandemia.

“Em virtude da ocupação máxima dos leitos de internação e do Centro de Terapia Intensiva (CTI) reservados para o tratamento de pacientes infectados pelo coronavírus e das dificuldades de ampliação do número de leitos de retaguarda, o Comitê de Enfrentamento da COVID-19 da instituição decidiu, nesta segunda-feira (14), manter as restrições de atendimento a casos leves e seguir priorizando os pacientes em estado grave, até que a situação atual de ocupação seja normalizada e a pandemia retorne aos patamares anteriores”, diz o hospital, em nota. “Esta medida se dá em caráter de exceção para que possamos manter a excelência e a qualidade de nosso atendimento. Estamos reavaliando a situação a cada 24 horas e divulgaremos novo comunicado em caso de mudança.”

No comunicado, o hospital faz um apelo à população para que obedeça as medidas de proteção e isolamento. “É fundamental que todos sigam as recomendações das autoridades sanitárias, utilizando máscaras em todos os momentos e higienizando as mãos e os ambientes de contato. Da mesma forma, deve-se evitar aglomerações, mantendo sempre o distanciamento social, principalmente neste momento.”

Hospital Mãe de Deus

O hospital tem adotado restrições de atendimento na Emergência e no chamado Espaço Azul (emergência exclusiva para pacientes com sintomas gripais) para pacientes classificados como Não Urgentes (Azul) e Pouco Urgentes (Verde). A orientação é que esses paciente busquem o atendimento ambulatorial via Telemedicina pelo número (51) 3230-6000 ou “em outro serviço”.

O hospital informa ter realizado adequações de espaços e fluxos, e que oito novos leitos de UTI estão disponíveis a partir dessa terça-feira (15). A instituição informa que a situação é monitorada em tempo real e, se houver necessidade, novas medidas de restrições no atendimento podem ser adotadas visando “garantir qualidade e segurança assistencial, para pacientes com Covid-19 e com outras doenças”.

Hospital São Lucas

Na última sexta-feira (11), o hospital anunciou a restrição do atendimento na emergência por 72 horas, completados nessa segunda (14). A medida foi adotada devido à alta demanda de atendimentos a pacientes por diversas patologias, incluindo casos confirmados ou suspeitos de covid-19. A prioridade foi atender casos mais graves, de acordo com a classificação de risco.

“A medida tem o objetivo de preservar a segurança de nossos pacientes e a manutenção da qualidade do atendimento. A situação será monitorada diariamente e poderá ser alterada conforme mudanças no cenário”, explica a instituição.

Hospital Ernesto Dornelles

Devido à superlotação, há cerca de 15 dias que o serviço de emergência do Hospital Ernesto Dornelles (HED) tem anunciado, diariamente, que está com atendimento restrito. O hospital informa que a medida “visa manter a segurança e a qualidade no atendimento aos pacientes” e que, por isso, a emergência está restrito aos casos de urgência, ou seja, “com risco de vida imediato”.