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Luciano Velleda | Sul21

No dia seguinte à morte de Jane Beatriz Machado da Silva, moradores da Vila Cruzeiro realizaram, no final da tarde desta quarta-feira (9), mais um protesto na Avenida Tronco, a principal via do bairro. Mulher negra, mãe, avó e bisavó, servidora da Guarda Municipal de Porto Alegre, Jane tinha 60 anos e morreu nessa terça-feira (9), em circunstâncias que ainda estão sob investigação.

A versão oficial, até o momento, é de que Jane voltava do mercado quando se deparou com policiais na sua casa, supostamente atendendo uma denúncia de maus tratos de criança. Impedida de entrar na própria residência, após discutir com um policial, ela teria escorregado, caído e batido a cabeça, morrendo logo depois. De acordo com laudo do Instituto-Geral de Perícia (IGP), Jane morreu em decorrência de um aneurisma cerebral.

Em declarações à imprensa, o delegado responsável pela investigação, Newton de Souza Filho, da 6ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), disse que, após ouvir duas testemunhas, incluindo uma vizinha presente no momento do fato, não há indícios de que a ação da Brigada Militar (BM) possa ter causado a morte de Jane. O delegado diz que a dúvida, no momento, é se ela escorregou e caiu em decorrência do rompimento da veia ou se o aneurisma se rompeu após ela cair no chão.

A versão oficial, entretanto, é veementemente criticada por moradores da Cruzeiro e lideranças locais, que dizem que Jane teria sido empurrada pelo policial que a impediu de entrar na casa, caindo e batendo a cabeça.

Ativista dos movimentos negro, feminista e dos direitos humanos, Jane Beatriz Machado da Silva foi formada pela primeira turma na Cruzeiro de Promotora Legal Popular da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, organização que trabalha no enfrentamento da discriminação contra mulheres. Era uma pessoa conhecida, respeitada e admirada no bairro.

Durante o ato dessa quarta-feira (9), diversos moradores relataram a rotina de violência causada pela polícia na Vila Cruzeiro, incluindo a invasão de residências sem mandado. Presente no protesto, a vereadora eleita Bruna Rodrigues (PCdoB), moradora da Cruzeiro, destacou que a truculência da polícia costuma ser a regra no bairro, um modo de agir que se repete “a vida toda”. “Enquanto um dos nossos corpos tombar, vamos estar aqui, na luta e na resistência”, afirmou.

Horas antes, em rede social, Bruna contou ter ido ao velório de Jane e estar triste e revoltada com a situação. “Mais uma de nós…poderia ser a minha mãe. Sabemos como se dão essas entradas da Brigada Militar na comunidade, os fatos precisam ser apurados imediatamente!”, afirmou.

Também recém eleita à Câmara de Vereadores, Laura Sito (PT) disse que a morte de Jane era consequência de mais uma operação policial cujo fim é um corpo negro caído no chão. “Querem usar de um laudo para apagar a truculência e o abuso da polícia. Nenhum documento vai apagar a resistência e luta de Jane e da comunidade”, afirmou, mais cedo, em rede social.

Presente no ato, Laura disse que foi uma manifestação de memória e de luta por mais uma vida negra da periferia perdida pela violência e truculência. “Até quando famílias e comunidades vão chorar? Até quando as nossas vidas estarão ameaçadas?”, questionou.