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Andressa Marques | Sul21

Desde o início de novembro, o programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) em parceria com a Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero e a PUC-RS realizou uma série de apresentações com dados do Índice de Estima em Relação às Pessoas Vivendo com HIV e AIDS em cinco cidades brasileiras, entre elas Porto Alegre. O webinário destacou que o diagnóstico positivo influencia a maneira que as pessoas se veem e se relacionam com parentes e amigos, a relação com o trabalho e com a saúde.

Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS publicado pelo Ministério da Saúde em 2020, o Rio Grande do Sul é o estado que apresenta a maior taxa de detecção de AIDS do Brasil: 28,3 para 100 mil habitantes. Porto Alegre apresenta uma taxa ainda maior: 58,5 a cada 100 mil habitantes. Este índice é mais que o dobro do estado e 3,3 vezes maior que a taxa média do Brasil, que é de 17,8%.

A pesquisa mostra que 26,4% dos participantes decidiram não se candidatar a uma vaga de emprego nos últimos 12 meses. Em Porto Alegre, 29% perderam a fonte de renda ou foram rejeitados em entrevistas em função da sua sorologia. Mesmo que haja uma legislação que garanta o direito do sigilo. Marcus Vinícius Pires, produtor cultural, pornógrafo, ativista LGBTI+ e positivo indetectável desde 2006 conta como enfrentou o estigma no trabalho em relação ao seu diagnóstico. “Quando eu trabalhava CLT e descobri que tinha HIV, eu fiquei com medo de ser dispensado. Eu achei que eu ia ficar doente e não ia conseguir trabalhar porque era esse o estigma que a gente via”, diz. “Eu cheguei para minha gestora e disse ‘tô com esse problema e quero te deixar claro tudo que tá acontecendo’ e aí em uma reunião, ela contou para todos os supervisores”, completa.
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Psicóloga clínica do Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids (SAE) e ativista da ONG Somos, Manoela Coimbra explica algumas falhas e descuidos das empresas que afastam pessoas com HIV e AIDS do ambiente profissional. “Infelizmente, essa lei do direito ao sigilo não dá conta de fato de proteger essas pessoas para que elas não venham a sofrer estigmas e não passem por situações de preconceito”, afirma. “Então a gente tem que fazer o trabalho social de estar falando mais sobre HIV e AIDS nas escolas, debatendo isso nas empresas para construir espaços que sejam mais acolhedores para essas pessoas. Para desmistificar alguns absurdos que ainda existem no senso comum”, diz.

“As empresas não conseguem ainda lidar com essa situação. Para mim, foi frustrante. Naquela época, acabei ficando depressivo e perdendo meu namorado, tudo por conta desse episódio. As empresas têm acesso ao histórico médico do funcionário pelo plano de saúde, então tem que ter um olhar diferenciado. Não é que a gente não quer trabalhar, a gente quer tá bem para trabalhar”, diz Marcus.

A inexperiência de alguns profissionais da área de saúde em lidar com o assunto também é um dos fatores que acaba por impedir que pessoas com HIV e AIDS busquem ajuda médica após o diagnóstico. Em relação aos serviços de saúde, 23,6% das pessoas entrevistadas afirmaram que o despreparo para lidar com sua sorologia foi o que as fez evitarem receber cuidados e/ou tratamento relativo ao HIV. Cerca de 11% também disseram ter medo que profissionais de saúde as tratassem mal ou revelassem a sorologia sem consentimento.

Yura Espindola de 29 anos é graduanda em Saúde Coletiva e faz parte do núcleo de saúde da ONG Somos. Yura vivenciou de perto a falta de empatia de alguns profissionais ao descobrir sua sorologia. “A questão do despreparo é uma coisa muito real. Minha primeira internação foi no Hospital Conceição, foi lá que tive meu diagnóstico e como descobri tardiamente, já tinha desenvolvido AIDS. E eu não recebi nenhum cuidado na hora do meu diagnóstico”, conta. “Eu estava na UTI, a infectologista chegou e disse que eu tinha HIV, virou as costas e disse que voltaria para conversar comigo e de fato essa conversa nunca aconteceu. No retorno que eu tive, um mês depois da minha primeira internação, um médico disse que conforme os meus exames e pelo que ele estava vendo, se eu sobrevivesse mais uns cinco anos era muito, então tu imagina a minha cabeça, uma guria de 23 anos”, lembra.

“A gente precisa lutar pelo fortalecimento do SUS, mas lutar para que receba investimento para melhorar a estruturação do serviço. Para que as equipes sejam melhor capacitadas, que os trabalhadores tenham uma proposta de educação continuada. Toda a rede de saúde, não só os profissionais do serviço especializado porque as pessoas que vivem com HIV não vão estar só nos serviços especializados, elas vão ter diversas demandas de saúde como qualquer outra pessoa”, destaca Manoela Coimbra.

“Quando a gente se depara com isso, a gente quer um amparo, um acolhimento de quem tenha conhecimento sobre tal assunto e que possa nos confortar. Infelizmente, isso eu não tive e o meu conhecimento se deu através da busca por conhecer outras pessoas que viviam com HIV. Eu tive a sorte de conhecer não só outras pessoas que vivem com HIV, mas outros profissionais da saúde que me deram suporte naquele momento”, diz Yura. Atualmente, Yura tem seu trabalho voltado especialmente para o suporte no tratamento de pessoas com HIV e AIDS. “É algo muito importante para outros jovens poder dar um diagnóstico para uma pessoa e saber exatamente o que ela está sentindo. Poder encaminhá-la de maneira correta, tirar as dúvidas e esclarecer tudo aquilo que, naquele momento, é fundamental”, afirma.

Mesmo após quase cinco décadas de conhecimento do vírus e com o avanço no tratamento e prevenção, o debate sobre HIV/AIDS inexiste ou está desatualizado em diversos setores da sociedade. “Eu estou com 38 anos, mas a impressão que dá é que a gente ainda vive na pós-ditadura, onde tudo é meio escondido, ninguém fala”, diz Marcus.

A Secretaria Estadual da Saúde disponibiliza teste rápido para HIV, sessões de aconselhamento e grupos temáticos de educação em saúde e Profilaxia Pós Exposição (PEP), para pessoas que tiveram alguma exposição ao vírus. Mais informações sobre os locais de atendimento podem ser obtidas aqui. No site da Prefeitura de Porto Alegre também é possível tirar dúvidas sobre testagem, tratamento e prevenção. Outra alternativa é buscar orientação junto ao Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (GAPA).

O Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV e Aids no Brasil é uma análise promovida pelas Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+); Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP); Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e AIDS (RNAJVHA); Rede Nacional de Mulheres Travestis e Transexuais e Homens Trans vivendo e convivendo com HIV/AIDS (RNTTHP). A pesquisa foi apoiada pelo Programa das Nações Unidas para o HIV e a Aids (UNAIDS), pela Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero, e pela PUC do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).