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Luís Eduardo Gomes | Sul21

Nara de Lourdes Bittencourt, moradora do bairro Medianeira, de Porto Alegre, pegou covid-19 no final de outubro. Ela acredita que foi contaminada quando precisou sair de casa para fazer uma perícia médica. De início, achava que era uma “gripezinha”. Tomou remédio para a gripe, mas não adiantou. Pelo contrário, começou a piorar. O mês de novembro foi avançando e nada de se recuperar, até que acabou precisando se internar no Hospital de Clínicas no dia 27 de novembro.

Foi da emergência para a enfermaria de covid-19. Ficou isolada, mas não precisou passar pela UTI. Duas semanas depois, começou a se recuperar e, em 8 de dezembro, três dias após completar o aniversário de 59 anos, recebeu alta e pode voltar para casa.

Oficialmente, Nara havia sido declarada como recuperada da covid-19. Não corria mais risco de morte, mas tinha tosses constantes e dores no corpo. “Eu sentia uma fraqueza muscular que parecia que eu tava com uma anemia, ficava bem cansada”, diz.

Já em casa, começou então a segunda etapa do tratamento, o pós-covid, voltado para a cura das sequelas. Do setor de fisioterapia do Clínicas, que voltou-se a partir do ano passado para a reabilitação de pacientes de coronavírus, recebeu uma lista de exercícios para fazer em casa, três vezes por semana. Nas segundas-feiras, tinha uma consulta com uma fisioterapeuta do hospital por tele-atendimento.

Nara relata que a rotina de exercícios era simples. “Exercício de levantar os braços, trancar a respiração, tranca e solta, para ver se o pulmão aguenta, levantar perna contar até dez, caminhar e conta até dez, quando tá cansada para e retorna de novo. De vez em quando, quando faço um exercício muito rápido, dá um pequeno cansaço, mas nada comparado a quando eu baixei. Eu baixei numa fraqueza total”.

Hoje, ela estima que que já está 90% recuperada. “Eu me considero já curada. De vez em quando, a gente tem uma dorzinha, mas eu também estou com 59 anos, tem coisas da idade, eu também faço quimioterapia”.

Chefe do Serviço de Fisioterapia do Hospital de Clínicas, Graciele Sbruzzi diz que, a partir da experiência com o tratamento de pacientes de covid-19 deste março do ano passado, é possível observar que as sequelas mais frequentes deixadas pela doença são fadiga, perda de força muscular, baixa tolerância para atividades diárias, perda de olfato e paladar.

“O que os trabalhos científicos trazem é a questão da fadiga e a diminuição de força muscular, e também o que a gente vê em alguns pacientes que são alterações neurológicas de não sentir o gosto, não sentir o cheiro dos alimentos. Mas fadiga, dispneia, esse cansaço significativo, falta de ar e diminuição de força muscular são alguns sintomas mais prevalentes nesses pacientes”, diz.

Cardiologista do Hospital Mãe de Deus, que atende pacientes da rede privada e conveniada em Porto Alegre, Euler Manenti explica que a literatura médica já reconhece o pós-covid como uma condição clínica. “São manifestações clínicas que o paciente, depois de se recuperar, ainda vai experimentar por alguns meses. Muitos pacientes também podem apresentar alterações neuropsiquiátricas, como alteração do sono, transtorno pós-traumático, ansiedade, depressão, cansaço mental para trabalhar, dificuldade de se concentrar. A intensidade dessas manifestações está muito relacionada com a intensidade que a doença teve”, afirma.

Euler concorda que o que mais chama atenção no pós-covid é um quadro de fadiga crônica dos pacientes. Contudo, destaca que eles também podem apresentar problemas cardiovasculares. “Alguns pacientes desenvolvem um tipo especial de infarto, que são microinfartos no coração. Esses pacientes precisam ser avaliados por um cardiologista e por uma equipe especializada no pós-covid”, afirma.

Euler relata que ele próprio teve covid e precisou lidar com as sequelas deixadas pela doença. Diagnosticado em dezembro, às vésperas do Natal, teve sintomas por 17 dias. Chegou a ser internados na UTI, mas não precisou ser entubado. “No pós-covid, o que eu sentia muito era uma sensação de cansaço. Tinha que dormir durante longos períodos do dia. Não tinha capacidade de me concentrar para ler um jornal inteiro, para ler um texto mais longo. Depois que voltei para casa, quando eu caminhava, dava um passo mais acelerado ou tinha que subir uma escada, eu sentia uma sensação de falta de ar. Eu comecei a fazer fisioterapia e isso me ajudou muito. Depois de três ou quatro semanas, eu comecei a melhorar bastante”, afirma o médico, acrescentando que já retornou ao trabalho.

Uma doença multissistêmica

Coordenador do Serviço de Fisioterapia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSCPA), Rodrigo Plentz explica que há três categorias de agravamento da covid-19. Na forma leve, o paciente praticamente não fica com sequelas. Na forma moderada, pulmões e sistema cardiorrespiratório são comprometidos após a contaminação, mas o paciente acaba se recuperando e consegue retornar a uma “vida praticamente normal”. Já a forma grave, que, via de regra, resulta na hospitalização e em internação em UTI, é, em geral, a que deixa o paciente com diversas sequelas.

“O covid-19 não termina quando o vírus fica inativo, porque ele deixa sequelas. Ele compromete vários órgãos e sistemas. A gente fala do pulmão, mas não é só o pulmão que fica afetado, depende de cada um. Depois que a pessoa consegue se curar do vírus, vamos dizer assim, ela fica com o pulmão comprometido, fica com uma fibrose pulmonar importante, que seria um enrijecimento dos alvéolos. Isso compromete a função pulmonar, a pessoa fica com dificuldades de respirar, de fazer trocas gasosas e, com isso, acaba tendo o que a gente chama popularmente de falta de ar. Mesmo depois de curar a doença”.

Plentz destaca que, cada um dos sistemas afetados exige uma atenção diferente após o paciente se recuperar da covid. No caso do sistema circulatório, a covid-19 afeta a coagulação sanguínea, formando tromboses, o que pode resultar em infarto e AVC (acidente vascular cerebral). “Aí o tratamento é tanto com remédios, como com exercícios físicos”, diz.

Quando afeta o sistema neurológico, pode resultar em alterações de memória, emoções, olfato, paladar e motricidade. “Sempre importante dizer que, se a pessoa já tem uma doença prévia, por exemplo, se já tem uma doença neurológica, cardíaca ou pulmonar, nessas situações esses sistemas já estão doentes, já estão alterados, e acabam ficando mais comprometidos”, afirma Plentz.

Além disso, também pode afetar o sistema muscular e articular, o que resulta na sensação de fraqueza, nas dores no corpo e nas dificuldades de realizar movimentos. “Na verdade, o covid-19 é uma doença que a gente pode classificar como sendo multissistêmica, afeta múltiplos órgãos e sistemas. Inicialmente, pulmão e coração, depois sistema neurológico, musculoesquelético e até mesmo o sistema renal pode ficar comprometido. Tendo em vista tudo isso, é muito importante que, depois que a pessoas saia do hospital, receba um acompanhamento médico e também um acompanhamento de fisioterapia para fazer a reabilitação desses problemas”, afirma.

Graciele Sbruzzi, do Clínicas, destaca também que, além dos efeitos da doença em si, nos casos mais graves, há uma série de sequelas que são resultado da internação prolongada em UTI. “Muitos pacientes ficam vários dias internados na UTI em uso de ventilação mecânica, em uso de algumas medicações como bloqueador neuromuscular ou sedativos que diminuem a força muscular desses pacientes, o que ocasiona perda de força e massa muscular. Então, o paciente sai com uma fraqueza muscular significativa da UTI. E algumas outras alterações também, como na fala, disfagia, algumas vezes desenvolvem a ocorrência de feridas por esse tempo prolongado de internação na UTI”, explica.

Cartilha de exercícios

Euler Manenti relata que, como resposta ao surgimento das complicações pós-covid, o Mãe de Deus criou um ambulatório especial que realiza uma avaliação integral de pacientes já considerados clinicamente recuperados da doença. “Pessoas egressas do hospital ou de outros hospitais têm nos procurado para resolver essa situação. Esse é um serviço que a gente se deu conta da necessidade de oferecer”, diz.

Nagiane Venturini de Oliveira, fisioterapeuta da Unidade de Internação do Hospital Nossa Senhora da Conceição, do Grupo Hospital Conceição (GHC), acrescenta que, como se trata de uma doença nova, os profissionais de saúde precisaram, ao longo do último ano, buscar muito conhecimento para planejar e realizar a reabilitação dos pacientes.

“Ninguém sabia quais seriam os efeitos em cada paciente e, aos pouquinhos, a gente foi se alimentando desse conhecimento, vendo como ia ser. Hoje em dia, a gente já tem mais noção do que há 10 meses”.

Ainda assim, ela destaca que uma dificuldade da reabilitação é que cada paciente tem sintomas e sequelas diferentes, com o possível comprometimento de múltiplos sistemas — pulmonar, cardíaco, neurológico e muscular. “Conforme a individualidade dos pacientes, a gente tem que prescrever os exercícios, a gente não pode exagerar na carga de exercício, porque eles já estão fadigados, já estão debilitados, com uma desordem fisiopatológica, da qual eles precisam se recuperar aos pouquinhos”, diz,

Nagiane explica que os profissionais do Conceição desenvolveram uma cartilha de exercícios para os pacientes que receberam alta continuarem fazendo exercícios para recuperação pulmonar e muscular após contrair covid. “A gente consegue fazer o acompanhamento no hospital, ensinar alguns exercícios e fazer de forma individualizada para ele dar sequência na sua residência quando tiver alta. E sempre focando bastante na parte respiratória e orientando muito eles. Porque, no início, é muito assustador, quando eles internam, já acham que vão ir para a UTI”.

Ela explica que o tratamento com fisioterapia presencial deveria ser mais longo após a alta do paciente, mas pontua que o hospital não teria condições de manter esse acompanhamento. “A gente desenvolveu a cartilha já pensando nisso, para eles começarem a fazer a terapia no hospital e terem os exercícios fáceis, simples, desenhadinhos, para a dar sequência, visualmente terem uma sequência de exercícios”, diz. Ainda assim, frisa que, junto com os exercícios, é essencial que se mantenha contato com um médico que possa acompanhar a evolução da reabilitação.

Desde o ano passado, a Santa Casa trabalha a reabilitação pós-covid com telemedicina e telefisioterapia. Nos casos em que o paciente precisa de um tratamento mais intensivo, conta também com o serviço de atendimento caseiro (home care). A partir de março de 2021, também contará com um serviço de reabilitação ambulatorial, semelhante ao oferecido pelo Mãe de Deus e por outras instituições da rede particular, para que as pessoas que ficaram com sequelas persistentes possam receber o atendimento no próprio hospital..

Rodrigo Plentz explica que a reabilitação faz parte de uma avaliação em que se verifica o que foi mais afetado, quais as incapacidades e necessidades do paciente, para então ser montado um programa de exercícios individualizado. No caso do tele atendimento, o fisioterapeuta fica de um lado da tela e o paciente da outra, para que possa ser monitorado e orientado enquanto faz a série de exercícios. Uma vez por mês, ou a cada 15 dias, dependendo da necessidade, o fisioterapeuta convida o paciente a fazer uma consulta no hospital para verificar se precisa de tratamento adicional.

Ele diz que, após uma centena de casos tratados, é possível perceber uma evolução importante nos pacientes a partir desse trabalho. “Isso funciona como um estímulo, porque a pessoa quando fica doente precisa de uma motivação para pode fazer suas atividades. Sabendo que vai ter esse momento que o fisioterapeuta vai conversar com ela pela plataforma da Santa Casa ou mesmo pelo WhatsApp, isso faz com que a pessoa acabe fazendo os exercícios”, diz.

Graciele diz que o HCPA estabeleceu um time de reabilitação multiprofissional voltade para o tratamento das sequelas antes mesmo do paciente receber alta. Uma equipe que conta com médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, enfermeiros e assistentes sociais.

“Esse time de reabilitação tenta trabalhar já na enfermaria para tentar reduzir essas sequelas. Quando o paciente ganha alta hospitalar, temos um fluxo em que a gente ou encaminha o paciente para o laboratório de fisiatria, que tem no Hospital de Clínicas, ou continua seguindo o paciente por tele monitoramento no Serviço de Fisioterapia, principalmente no caso dos pacientes que saem bastante debilitados e não conseguiriam vir para o laboratório de fisiatria para fazer a reabilitação. Ou são de fora ou não têm condições de vir para o hospital”, diz.