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Luciano Velleda | Sul21

“É difícil, mas vamos lutar, não terminou a luta, a batalha vai continuar. É a escola dos nossos filhos.” A afirmação de Rossana da Silva, mãe de aluno e presidente do conselho escolar da Escola Estado do Rio Grande do Sul, é um pouco o resumo do que acontece na instituição nos últimos seis meses. Desde agosto do ano passado, quando o governo de Eduardo Leite (PSDB) decidiu fechar a tradicional escola, localizada no centro de Porto Alegre, uma longa mobilização da comunidade escolar teve início.

A falta de diálogo e de justificativas convincentes da Secretaria Estadual da Educação (Seduc) para o fechamento da escola foram as principais reclamações de pais e mães de alunos, professores, funcionários e da própria direção ao longo do processo. Uma história que teve mais um capítulo na última semana de janeiro, quando chegou ao fim a ocupação, promovida por alunos, ex-alunos e familiares, que se manteve no interior da escola por 139 dias.

“É um sentimento de cansaço, mas estamos lutando ainda”, diz Rossana, com esperança de que a ação interposta pela Defensoria Pública do Estado (DPE) ainda possa reverter a decisão de fechamento da escola, uma decisão que a comunidade escolar nunca entendeu e não aceita.

No começo da disputa, a justificativa oficial era usar a estrutura da escola para criar um abrigo temporário para pessoas em situação de rua. Na ocasião, em agosto de 2020, era auge do inverno e um dos momentos mais críticos da pandemia no Estado. Depois, a explicação do governo estadual passou a ser as más condições da estrutura da escola e os riscos decorrentes. A explicação nunca foi aceita pela direção da escola, que sempre sustentou que os problemas eram pontuais, como uma infiltração causada por vazamento na caixa d’água.

Os participantes da ocupação haviam planejado entregar as chaves da escola para a diretora Elisa Santana Oliveira na última sexta-feira (29). Na véspera, estava planejada a vistoria por um engenheiro contratado pela comunidade escolar para avaliar as reformas feitas, como o conserto da infiltração da caixa d’água, pinturas e outros reparos. A intenção, todavia, foi frustrada. Um dia antes, na quarta-feira (27), o governo do Estado arrombou pela segunda vez a escola e colocou seguranças no interior do prédio.

Volta às aulas

Com a proximidade do retorno das aulas no começo de março, os alunos da Escola Estado do Rio Grande do Sul que não fizeram matrícula em outra instituição, serão transferidos automaticamente para a Escola Leopolda Barnewitz, situada na Cidade Baixa. Seja pela distância, a diferença de estrutura ou pelos laços já consolidados com professores e funcionários da escola Rio Grande do Sul, a mudança já prevista nunca foi bem aceita pelos pais e mães dos alunos.

O filho de Rossana da Silva vai para o 9º ano e ela ainda não sabe o que fazer. A falta de opção de escola pública no centro é um problema apontado pela presidente do conselho escolar da Escola Estado do Rio Grande do Sul. “Não sei ainda o que vou fazer, não tenho como colocar ele numa escola particular e a única mais perto é o Paula Soares”, diz Rossana. “Só queria que tivessem um pouco mais de piedade e coração com as crianças. Não tem motivo pra tirar as crianças dali. O que a gente mais quer é que as crianças voltem para a escola Rio Grande do Sul.”

Segundo Rossana, muitos pais e mães também não querem transferir o filho para a Escola Leopolda Barnewitz. A preocupação é particularmente maior com os pais de alunos com necessidades especiais, que elogiam muito o trabalho até então feito pelos professores da escola Rio Grande do Sul.

Por sua vez, os professores e funcionários da escola Rio Grande do Sul ainda não sabem onde irão trabalhar em 2021. A informação é de que serão avisados do futuro destino profissional a partir do dia 23 de fevereiro. A diretora da escola, Elisa Santana Oliveira, lamenta o desfecho ocorrido semana passada, com o governo do Estado novamente entrando na escola e impedindo a vistoria do engenheiro programada pela comunidade escolar. “Poderia ser de uma forma tranquila, fica tudo muito desagradável.”

Elisa elogia o trabalho feito pela Defensoria Pública, principalmente a escuta com pais e mães, algo que, enfatiza, faltou por parte do governo Leite e até mesmo do Ministério Público Estadual. Porém, ela diz não ter muito esperança de que a ação seja julgada a tempo de modificar algo antes do reinício das aulas.

A diretora da escola, em breve ex-diretora, assim que a extinção da escola estiver oficializada, também enaltece o esforço e empenho de pais, mães, alunos e ex-alunos durante os seis meses de crise com o governo estadual e mais de 100 dias de ocupação. “Eles estavam tentando de tudo que é forma, fizeram de tudo pra melhorar a escola, mas a Coordenadoria Regional de Educação nunca foi ver.”

Procurada pela reportagem do Sul21 para explicar por que não permitiu a vistoria programada pela comunidade escolar e qual será o destino do prédio da escola Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual da Educação não respondeu até a publicação dessa matéria. As respostas serão acrescentadas assim que recebidas.