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Andressa Marques | Sul21

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) obteve neste ano o maior índice de abstenção já registrado desde a sua criação, em 1998. No primeiro dia (17 de janeiro), 51,5% dos estudantes não compareceram aos locais de prova. No segundo dia (24 de janeiro), 55,3% deixaram de prestar o exame. Até então, o mais alto índice de abstenção registrado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) havia sido em 2009, com 37,7%. No Rio Grande do Sul, o número de candidatos que não realizaram as provas foi ainda maior. Segundo dados do Instituto, dos 245.877 inscritos, 56,2% não prestaram o exame.

Aline Batista desistiu de fazer as provas do segundo dia. Foto: Arquivo Pessoal

Aline Batista, de 19 anos, foi uma das inscritas para o Enem que optou por não fazer as provas do segundo dia. Estudante do Esperança Popular da Restinga, cursinho localizado na Zona Sul da Capital, seguiu com ensino remoto no primeiro semestre de 2020, mas suspendeu as atividades por problemas com internet, acesso às aulas e ambiente para estudo em casa. “Optei por não fazer a segunda prova porque ao longo do ano o estudo foi muito difícil, acabei tendo pouco amparo e eu tenho uma filha de dois anos, então acaba ficando complicado”, diz Aline. “Também foi muito mais por uma questão emocional. Na primeira prova, eu tive crise de ansiedade, então resolvi desistir da segunda prova porque eu não achava que valia a pena me submeter ao abalo psicológico que a prova do Enem traz”, completa.

Vanessa Porciúncula, 37 anos, é Socióloga, Doutoranda em Educação e atua há seis anos como professora em Pré-Universitários Populares, sendo uma das coordenadoras do Esperança Popular da Restinga. A professora explica as principais dificuldades enfrentadas devido à pandemia e aponta a diferença de rotina de estudantes periféricos. “Enquanto professora de pré-universitários populares, quando a gente faz o nosso processo de seleção a gente sempre pergunta a rotina do estudante, a organização familiar e qual o tempo reservado aos estudos. E o que a gente vê é que grande parte dos nossos estudantes só tem o tempo da aula presencial para os estudos. A rotina de vida diária dos estudantes trabalhadores e de periferia não é uma rotina que permita integrar horários exclusivos para o estudo”, afirma.

Vanessa Porciúncula destaca as diferenças na rotina de estudantes periféricos. Foto: Arquivo Pessoal

Na edição de 2019, as informações socioeconômicas divulgadas apontavam que cerca de 1,1 milhão de participantes, ou seja 22,4%, não tinham acesso a internet e 46% não tinham computador em casa. Na região Sul, essa porcentagem era de 11,1%. Tendo em vista a situação sanitária decorrente do novo coronavírus, que deixou as escolas brasileiras fechadas durante o ano, o déficit de aprendizagem – diretamente ligado à falta de acesso a ferramentas indispensáveis nesse período, juntamente com redução na renda e outros fatores – deve se refletir no resultado das provas.

“Dada as condições concretas de vida, a maioria dos estudantes não conseguiu se organizar ou se viu obrigada a desistir da educação no ano que passou. Falo aqui das condições de moradia, econômicas, de acesso à tecnologia, psicológicas, entre outras, que impossibilitaram a participação destes estudantes. O mesmo vale para os professores, incluindo nesse caso o desafio pedagógico e da precarização das condições de trabalho”, afirma Rodrigo Nickel, coordenador e professor do Emancipa Cursinho Popular Pré-Universitário. “Em suma, a pandemia também na educação explicitou a brutal desigualdade social existente no Brasil”, completa.

Vivian Aires, professora do Kilomba Pré-universitário, localizado na Lomba do Pinheiro, afirma: “Nosso público dentro da educação popular é justamente o de baixa renda. Alunos de escolas públicas e de periferias. Então, com a pandemia, muitas famílias sofreram ainda mais perdas financeiras e econômicas e isso trouxe mais dificuldades de se lidar com a questão e de tornar possível e viável acesso à um wi-fi de qualidade, smartphones e computadores que contemplassem todo o uso que seria necessário para acompanhamento de 5 horas de aula”, diz.

Estevão Souza, de 18 anos, aluno do Kilomba Pré-universitário, também não realizou as provas pela dificuldade de estudo no contexto atípico desse ano. “As dificuldades foram as que todos os alunos sentiram, a falta do professor”, afirma. Estevão diz que, mesmo com as assistências e dicas dos professores para conseguir concluir as atividades, certas dúvidas ele teve que optar por resolver de forma autônoma.

Estevão Souza conta que teve dificuldades para estudar em 2020. Foto: Arquivo Pessoal

Os impactos da abstenção nas provas serão inúmeros e devem se refletir socialmente na falta de perfis que ocupem as vagas para cotistas. “A educação é um instrumento por excelência de promoção da cidadania. No momento em que é inviabilizado o acesso a ela, contribui-se para a reprodução da desigualdade social no Brasil, negando oportunidades para milhares de brasileiros”, diz Rodrigo. Para ele, a soberania de um país também se faz pela sua autonomia na produção de conhecimento socialmente relevante. “Muitos desses que não ingressam na universidade, são potenciais produtores desses conhecimentos”, afirma.

Abalo psicológico

Os educadores também apontam problemas emocionais e psicológicos como algumas das maiores dificuldades enfrentadas por esses alunos. “O Enem 2020, da forma como ele aconteceu, se perdeu muito socialmente”, afirma Vivian. “Por uma decisão política, foi mantida uma data que gerou um nível de abstenção daqueles alunos que não tiveram acesso a condições sanitárias, econômicas, emocionais e de oportunidade, no sentido de estudar e se preparar para a prova. Foi um ano em que muitas pessoas sofreram perdas familiares inesperadas para o vírus, e o aluno que perdeu um familiar durante esse ano não tem condições de render o mesmo que um aluno que não tenha sido afetado na sua família por uma doença que causa tanta incerteza”, completa.

Vivian Aires: ‘Será uma geração muito mais elitizada’. Foto: Arquivo Pessoal

Além de todas as dificuldades individuais, enfrentadas por cada estudante que prestou o exame ou desistiu de fazer as provas, o Enem deste ano conseguiu ser, ao mesmo tempo, aquele com maior abstenção em mais de 20 anos e também aquele em que alunos tiveram que voltar para casa em razão da superlotação de algumas salas, que não tinham capacidade para atender a demanda com o distanciamento necessário em meio à pandemia de coronavírus. Mesmo assim, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, fez questão de  definir o evento como “um sucesso”.

“O MEC fala em um Enem bem-sucedido quando um estado inteiro, devido ao avanço da pandemia, não pode realizar o Enem junto com os outros demais Estados da Federação. Então não tá tudo bem, não foi um Enem de sucesso. Foi o Enem da imprudência e da desigualdade”, diz Vivian. Ao todo, foram quase 5,7 milhões de estudantes inscritos, dos quais cerca de 3 milhões não compareceram. A reaplicação do Enem para estes que não conseguiram realizar a prova deve ocorrer nos dias 23 e 24 de fevereiro, mesma data prevista para o Estado do Amazonas, onde a Justiça suspendeu as provas em janeiro em razão do caos na saúde.

Rodrigo Nickel lembra que a comunidade escolar apontou maio de 2021 como data para as provas. Foto: Arquivo Pessoal

Para profissionais da educação, o Exame deveria ser adiado por questões de saúde que ameaçam a população. O professor Rodrigo Nickel lembra que, no ano passado, a comunidade estudantil apontou o mês de maio de 2021 para a realização das provas, mesmo que as incertezas fossem grandes sobre a pandemia. “De forma antidemocrática – signo do governo Bolsonaro – o MEC impôs o Enem em janeiro de 2021. Decisão irresponsável, pois dada a forma como o combate à pandemia foi conduzido, coincidiu com um novo aumento no número de infecções, internações e óbitos, colocando todos que participaram das provas em perigo. Um absurdo”, afirma.

Quem perdeu o Enem por problemas de infraestrutura, como as salas lotadas, quem teve diagnóstico de covid-19 ou doenças infectocontagiosas na véspera do exame ainda pode realizar as provas em fevereiro. O Inep já recebeu ao menos 18.210 solicitações relacionadas ao novo coronavírus e aprovou 13.716 desse total.

“Será uma geração muito mais elitizada do que nos anos anteriores justamente porque não se pode garantir o acesso à educação de forma isonômica a quem precisava deste amparo social”, diz Vivian Aires.