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Walmaro Paz | Brasil de Fato

A proposta de retorno das aulas presenciais levada pelo Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS) ao governador Eduardo Leite (PSDB) nesta semana deixou os professores preocupados e os epidemiologistas indignados. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, o doutor Alcides Miranda, professor de epidemiologia no curso de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) questionou: “quando eu vejo estas autoridades do campo da educação defendendo o retorno eu fico me perguntando se algum deles assumiria a responsabilidade no caso de haver surtos ou contágios, como já têm ocorrido em alguns casos em algumas escolas”.

Para ele, na perspectiva específica da educação vários argumentos são legítimos e as preocupações importantes, mas quando se contextualiza isso do ponto de vista epidemiológico, não há justificativa para um retorno sem realmente uma proteção como a vacina. “Um mínimo de cobertura vacinal para se ter uma margem de segurança para este retorno, mesmo com um retorno com máscara, com distanciamento, como eles estão preconizando. Nós precisamos de uma garantia a mais. Nós precisamos de uma cobertura mínima de vacinação para justificar este retorno. Eu acho que não deveria haver este retorno”, afirmou categórico.

A proposta

Os jornais da grande imprensa da Capital divulgaram a proposta do Sinepe ao governador Eduardo Leite e o encaminhamento da decisão para a Comissão de Crise que vem gerenciando a situação da pandemia no estado. A obrigatoriedade da presença no formato híbrido é discutida pelo Gabinete de Crise, que se reunirá hoje (4). Para convencer pais a levar os filhos para a escola, o Piratini deve lançar uma campanha, ainda nesta semana, de convocação dos jovens ao ensino presencial.

O presidente do Sinepe, Bruno Eizerik, que levou ao governo a sugestão de implementar a obrigatoriedade da presença dos alunos em sala de aula no ensino híbrido, afirma que as escolas já aprenderam a implementar os protocolos sanitários e que o ambiente é seguro. Eizerik alega, entre outras coisas, que a escola é um lugar de convivência e inúmeras autoridades educacionais e pediatras estão alertando para os prejuízos e danos que a falta disso trará às crianças.

Professores preocupados

A diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) Cecília Farias, por sua vez, externou a preocupação da categoria. “O sindicato está bastante preocupado com esta proposta que o Sinepe levou ao governo do estado. Nós concordamos que deva ter aula presencial, mas dentro de certos critérios e um deles é justamente a família poder optar para o filho ir ou não ir à escola”. Ele explicou que não estava falando de matricula que é obrigatória, “estamos falando de aulas presenciais. Nos consideramos que as famílias precisam anuir sempre.“ Lembrou ainda que o número de alunos na sala de aula tem que ser de no máximo cinquenta por cento, além de todas as precauções sanitárias como a aferição de temperatura, o uso de álcool e de máscaras.

Ela disse ainda que o sindicato ficou um pouco preocupado porque, segundo informações, a medida é que a metade dos alunos de uma turma siga em presencial e a outra metade on line, com os dois grupos revezando. Também que esses alunos que ficarem em casa teriam atividades. “Nos parece impossível para o professor fazer o planejamento das aulas e das atividades para os alunos on line. Então nos parece preocupante na medida em que a tarefa do professor, o trabalho do professor duplica e realmente ele não vai ter condições de fazer isso.”

Uma outra questão também levantada pela professora é a vacina. “É importante que a gente lembre que o problema da aquisição de vacinas em nosso país foi muito mal conduzido, nós temos hoje uma parte mínima da população vacinada e nós esperamos que, sim, com a vacina nós podemos voltar ao normal, mas teremos que ter essas precauções.”

Conforme ela, “se houver essa pressão tão grande de retorno às aulas presenciais, os professores teriam que ter prioridade em relação a vacina. Mas também nós ficamos sensíveis aos profissionais da educação, aos quilombolas, aos indígenas. Nós não queremos que somente o professor seja lembrado agora. O importante é que a população em geral tenha acesso a esta vacina”.

Rede pública em alerta

O CPERS Sindicato, entidade que representa os professores da rede pública estadual, lançou uma nota manifestando profunda contrariedade à presença forçada de estudantes nas escolas neste período de recrudescimento da pandemia. Conforme a nota “não é possível que, após mais de 220 mil vidas perdidas, continue a prevalecer a lógica que transformou o Brasil em ameaça sanitária global, pária em rankings internacionais e vetor de variantes mais perigosas da coronavírus”.

A nota segue: “Países que priorizaram a reabertura de escolas fizeram o dever de casa: controlaram a disseminação comunitária e adotaram a ampla testagem como rotina. Aqui, os testes apodrecem em depósitos e, no estado, o governo sequer apresenta dados do contágio na rede e se nega a vistoriar as instituições de ensino. Chavões vazios como a suposta preocupação em ‘reduzir a desigualdade’ dominam o debate e desafiam a inteligência de quem conhece a rede estadual; escolas sucateadas, com estrutura precária, deficitárias em recursos humanos e sem condições de cumprir os protocolos. Este é um governo que sempre tratou a educação pública mais como um estorvo do que como forma de promover equidade e justiça social. Ou alguém pensa que para combater a desigualdade é necessário massacrar educadores(as), extinguir centenas de turmas de EJA, proibir matrículas, fomentar a evasão e fechar escolas?”

Epidemiologista discorda de obrigatoriedade

O professor Miranda argumentou ainda que a informação que existe é que se passou agora por uma fase intensiva de aumento de contágios. “Os casos de complicações e de óbitos, aparentemente estão arrefecendo um pouco neste momento. Estamos num platô, estão diminuindo os casos. Mas não há nenhuma evidência de que o retorno às aulas, às atividades escolares, não implicariam numa retomada na cadeia de contágios. Mesmo que crianças ou adolescentes tenham casos mais leves, elas continuam propagando o contágio quando retornam para suas casas.”

Conforme Miranda, o mais grave é que os epidemiologistas e infectologistas têm dado sua opinião desde o ano passado, mas não são levados em conta pelas autoridades e tudo o que previram no início da pandemia vem ocorrendo agora. “Ficamos até constrangidos” – afirma ele. Indignado com a situação, afirmou ainda que “o comportamento do governo federal é crime de responsabilidade”, já as autoridades do estado deveriam ter prestado mais atenção nos alertas dados pelos cientistas sobre o que poderia acontecer. “Porém foram ouvir os empresários que estavam preocupados com seus negócios. É fácil defender o retorno à aula. É fácil defender o retorno às atividades econômicas porque a responsabilidade sobre óbitos evitáveis vai ser jogada para o limbo. Ninguém se responsabiliza.”

E concluiu: “eu acho temerosa esta iniciativa. Eu acho que este discurso de pessoas, inclusive pessoas com legitimidade para falar de educação, carece de amparo de quem trabalha com isso. Quer dizer, o pessoal da epidemiologia, o pessoal da infectologia trabalha com isso e, principalmente, a questão mais importante, carece de legitimidade de ouvir os principais atores, pessoas que estão implicadas nesta questão, que são os professores”.