Com aumento de óbitos por covid, setor funerário de Porto Alegre suspende férias e prepara estoques – Porto Alegre 24 horas
Cemitério
Foto: Brayan Martins/ PMPA

Com aumento de óbitos por covid, setor funerário de Porto Alegre suspende férias e prepara estoques

O pior cenário, estima Panhozzi, seria o número de mortes triplicar em relação ao que era considerado como normal.

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Luís Eduardo Gomes | Sul21

Imagens de pessoas fazendo fila do lado de fora de cartórios de Porto Alegre para registrar o óbito de familiares percorreram o Brasil no último final de semana. As cenas retratam o momento dramático da pandemia de covid-19 no Rio Grande do Sul, com recordes de mortes sendo constantemente batidos. Somente na terça-feira (16), foram confirmados 502 óbitos, dos quais 214 ocorreram durante o final de semana, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde — os boletins epidemiológicos diários sempre incluem mortes que ocorreram em dias anteriores.

Para evitar que pessoas fossem obrigadas a esperar em filas para registrar as mortes de parentes, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) determinou na segunda-feira (15) que o plantão de registro de óbitos, que estava sendo realizado nos cartório de registro civil da 5ª Zona de Porto Alegre, fosse transferido para a Central de Atendimento Funerário (CAF-POA), sediada na Rua Santana, nº 966. Determinou também que o CAF aumentasse sua estrutura, número de funcionários e horário de atendimento para o plantão de óbitos, passando a ser das 18h às 8h em dias úteis e 24h durante os finais de semana, revogando intervalos anteriormente previstos. Além disso, reforçou o atendimento de registro de óbitos no cartório da 2ª Zona, localizado na Av. Venâncio Aires, nº 243, que permanecerá aberto das 18h à meia-noite dos dias úteis e das 8h à meia-noite nos sábados, domingos e feriados.

De acordo com dados do Portal da Transparência do Registro Civil, o Rio Grande do Sul já registrou 7.938 óbitos em março de 2021 (conforme consulta no portal às 18h desta quinta-feira, 18), o que representa um aumento de 18,9% em relação a todo o mês de março de 2020, quando foram emitidos 6.676 registros de óbitos. Somente no dia 15, foram registrados 403 óbitos em que a causa da morte foi relacionada à covid-19.

A explosão de óbitos por causa do coronavírus também colocou em alerta o setor funerário e de sepultamentos. Presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), Lourival Panhozzi destaca que, em todo o ano passado, houve um crescimento no número absoluto de óbitos de cerca de 12% no Brasil, enquanto que, na primeira quinzena de março, o crescimento já passou de 25% em relação a março do ano passado. “Esse é um número que nos assusta porque não parou de crescer e não para de crescer. E ninguém nos fala até onde ele vai chegar”, diz.

Panhozzi pontua que a preocupação do setor é justamente com o fato de não ser possível prever até quando os números continuarão crescendo, o que dificulta qualquer planejamento para atender a demanda. “É uma situação totalmente nova para todos nós, o caso mais recente [de pandemia] tem 100 anos, não dá para ter como referência, porque era uma outra matriz funerária, então nós preferimos imaginar os quadros mais severos e começar a nos preparar para eles”, diz.

O pior cenário, estima Panhozzi, seria o número de mortes triplicar em relação ao que era considerado como normal. “Se nós chegarmos a esse número, seria o desespero. Essa, em tese, é a nossa capacidade máxima”. Ele acrescenta que, caso esse número fosse alcançado, a saída seria realizar sepultamentos em valas comuns. “Nós estamos tentando evitar isso ao máximo”, afirma.

Nesta semana, o presidente da Abredif encaminhou uma orientação para que as empresas do setor suspendam todas as férias de funcionários planejadas, incluindo aquelas já em andamento, para que adequem seus estoques prevendo um aumento expressivo de óbitos e para que façam um levantamento da capacidade de sepultamento de cada cemitério num raio de até 50 km da cidade em que estão sediadas.

“Em algumas situações, é melhor levar o corpo para Canoas, por exemplo, do que colocar em uma vala comum em Porto Alegre e de lá você consegue resgatar o corpo num futuro próximo. Numa vala comum, é muito difícil fazer essa recuperação, identificar quem é quem depois, porque está todo mundo junto numa vala. Isso é horrível, vamos lutar contra isso a todo custo”, afirma.

Em vídeo encaminhado para empresas do setor nesta semana, ele afirmou também que a associação prepara o lançamento de um sistema nacional de cadastro de cemitérios do Brasil, com informações sobre jazigos disponíveis e capacidade de sepultamento por hora. “É muito importante termos esse número para que possamos nos planejar”, diz.

Panhozzi avalia que essas orientações vão no sentido de que, no momento, não é mais possível considerar que existem várias empresas no setor, mas apenas uma única funerária, com cada uma delas trabalhando de forma conjunta para garantir que todas as famílias tenham condições de enterrar seus familiares de forma digna.

Presidente da Associação Sulbrasileira de Cemitérios e Crematórios (Asbrace), Gerci Perroni Fernandes avalia que, por enquanto, as empresas de Porto Alegre que atuam no setor estão conseguindo atender o aumento da demanda por sepultamentos. A preocupação dele, contudo, é para o caso de ocorrer um surto de covid-19 entre os trabalhadores, o que poderia levar a um colapso no setor. “A preocupação maior do segmento é a questão da vacinação. Com o aumento de óbitos do covid, o nosso pessoal se expõe ainda mais. Se der um surto no nosso segmento, aí nós não vamos poder atender a demanda”, pontua.

Já Panhozzi diz que outra preocupação do setor sobre a capacidade de atender a demanda ocorre diante das medidas de restrição impostas por prefeituras e governos estaduais para conter a explosão da pandemia, uma vez que setores como o de fabricantes de urnas foram atingidos por muitas dessas medidas. “Ninguém lembrou que o fabricante de urna é atividade essencial e não pode parar. Tem que também ver a cadeia de fornecimento. O cara que fornece o MDF para ele também não pode parar”, diz. “Se a indústria de urnas parar, não adiante ter estrutura, eu não vou ter material”.

Além disso, destaca que algumas localidades orientam que, após a confirmação de um óbito, o corpo seja levado imediatamente para um cemitério. “Tá errado esse processo, esse corpo tem que ir para o cemitério no momento em que há condições de sepultamento”, diz, acrescentando que o sistema em planejamento pela Abredif prevê que as funerárias possam verificar os horários disponíveis nos cemitérios e agendar sepultamentos.

Em Porto Alegre, os velórios foram proibidos entre março e 31 de agosto de 2020. As cerimônias foram retomadas a partir do início de setembro, podendo ser realizadas em tempo integral, mas limitadas a 30% de ocupação das capelas e respeitando os protocolos de higienização e distanciamento.

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