Siga o Porto Alegre 24 Horas no Google News Entre no grupo do Whatsapp

A Conmebol anunciou, nesta terça-feira (13), que receberá 50 mil doses da vacina CoronaVac, doadas diretamente do laboratório chinês Sinovac, para imunizar integrantes de clubes de futebol. A entidade diz que usará o imunizante em atletas masculinos e femininos, dirigentes e integrantes das comissões técnicas das equipes que disputam a Libertadores, Sul-Americana e Copa América nesta temporada.

Entretanto, a ideia foi duramente criticada por médicos especialistas e rotulada como um “fura-fila” da entidade esportiva sul-americana. Ao jornalista Thiago Braga, do UOL, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis chamou a iniciativa de “imoral”.

“É inacreditável e não faz sentido. A menos que o futebol crie um mecanismo ilegal de vacina. O futebol pensa que está acima de qualquer lei e código moral. Para quem gosta de futebol, é um chute no estômago”, criticou.

O infectologista Paulo Lotufo acredita que a doação de vacinas da Sinovac é como uma jogada de marketing do laboratório e classifica como “inadmissível”. “Um absurdo total, do ponto de vista ético e operacional. Não há porque privilegiar jogadores de futebol, que não fazem parte de grupos prioritários. E se é doação, que seja usada para imunizar profissionais da saúde, professores e outras pessoas que necessitam”, disse ao UOL.

Futebol à margem da sociedade

Ainda ontem, o presidente do Santos, Andres Rueda, também foi crítico ao anúncio da vacina da Conmebol e disse ser contrário à medida, por se antecipar à vacinação do público em geral. Para ele, priorizar os atletas é “desumano” com a sociedade.

“Não vejo com bons olhos. Acho que no momento que a sociedade está vivendo, você começar a dar vantagens para algum nichos, acho meio desumano. O futebol é divertimento, é entretenimento. Por que eu, só porque sou presidente de um clube, vou tomar vacina na frente do carregador de papelão na rua? Não vejo com bons olhos”, disse ao programa “Seleção SporTV”, do SporTV.

A iniciativa da Conmebol é semelhante ao texto-base do projeto de lei 948/2021, aprovado pela Câmara dos Deputados, no último dia 6 de abril, que permite a compra de vacinas contra a covid-19 pela iniciativa privada a fim de aplicá-las em diretores e funcionários de empresas.

A medida foi amplamente criticada por especialistas, pois tiraria doses do Sistema Único de Saúde (SUS). “Se uma empresa ou um empresário, conseguir comprar, estarão tirando uma vacina que viria para o SUS. É um verdadeiro camarote privado de vacinas”, disse o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha à Rádio Brasil Atual.

Ao jornal Zero Hora, o presidente da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Gabriel Oselka, também afirma que a vacina antecipada pela Conmebol não respeita a ordem de imunizações definidas pelos governos de cada país. No Brasil, por exemplo, diversos estados e municípios sofrem com a falta de doses para atender os grupos prioritários.

“Neste momento em que falta vacina em todos os lugares, a primeira reação que se tem ao saber dessa notícia é de um caso de fura-fila. Está faltando vacina não apenas no Brasil, mas em todos os países, inclusive na China. Se está tomando lugar de pessoas que estariam em risco, e chama atenção que o número é muito elevado. É uma inversão de prioridade”, criticou.

Sem amparo jurídico

Para viabilizar a utilização da CoronaVac pela Conmebol foi feito um acordo com o presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou. Ele fará a mediação das doses, pois as farmacêuticas não podem vender doses ao setor privado. Diante disso, as vacinas passarão por diversas mãos. Primeiro, pelo governo uruguaio, que repassará à Conmebol e distribuirá as doses para as confederações nacionais, que realizarão a aplicação.

Porém, o Brasil ainda não colocou em vigor a lei que permite o fura-fila. Portanto, apesar do setor privado poder comprar vacinas, deverá doá-las ao SUS enquanto não for concluída a vacinação dos grupos prioritários no país, prevista no Plano Nacional de Imunização.

Além disso, o médico, advogado sanitarista, pesquisador da USP e do Institut Droit et Santé da Universidade de Paris, Daniel Dourado, diz que a situação é ainda mais complicada no Brasil para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) conseguir “furar a fila”.

“Primeiro, a CBF teria que pedir autorização da Anvisa para poder receber a vacina Sinovac. E, mesmo assim, pela lei vigente (14.125, de 10 de março de 2021), todas as vacinas recebidas devem ser doadas para o SUS para serem usadas no Programa Nacional de Imunizações”, explicou ao jornalista Martín Fernandez, do Globo Esporte.

A Conmebol afirma que a prioridade da vacina será para a Copa América, marcada entre os dias 13 de junho e 10 de julho e que reunirá dez seleções sul-americanas, na Argentina e Colômbia. O Brasil estreia contra a Venezuela, no dia 14. (RBA)