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Do Sul21

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denuncia que área Pindo Poty, habitada pela comunidade Mbya Guarani no bairro Lami, zona sul de Porto Alegre, está sendo invadida para a construção de loteamento irregulares. Imagens feitas pela entidade mostram invasores cercando áreas e construindo barracos dentro da área indígena. A terra Pindo Poty teve o processo de demarcação iniciado pela Funai em 2012.

De acordo com o Cimi, a comunidade já notificou o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional do Índio (Funai) cobrando medidas para evitar as invasões. Os indígenas, segundo o Cimi, temem ser expulsos de duas casas pelos invasores.

“Quando em visita à comunidade Mbya Guarani Pindó Poty, fui informado pelo cacique Roberto Ramires de que os jurua, os brancos, continuam loteando a terra onde eles estão vivendo. Ao chegar no local indicado, verifiquei o aumento da área desmatada e que já haviam, mesmo depois de denúncias formalizadas à Funai e ao MPF, aumentado o número de construções dos barracos. Me deparei, além disso, com pessoas que naquele exato momento estavam roçando a área e fincando estacas para a marcação do lotes. Um dos homens, ao me ver, se aproximou e de imediato o indaguei se ele sabia que aquela terra era indígena? Calmamente me respondeu que sabia. Eu então, em sequência, o questionei: se sabe que a área é particular por que a estão loteando? Ele, muito mais calmamente ainda, como que sussurrando, disse que estavam cuidando do lugar”, relatou Roberto Liebgott, coordenador do Cimi-Sul, após visita ao local no dia 15 de abril.

Segundo Roberto, a invasão da comunidade é sistemática, mas a área ocupada tem aumentado. “O que me surpreendeu agora foi o fato de, à luz do dia e diante dos olhos de todos, estarem desmatando a área, construindo barracos, fincando as estacas e cercas. Ou seja, estão demarcando toda a área em lotes clandestinos e provavelmente, agora, estejam lá colocando mais barracos”, disse.

Roberto diz que, apesar de acionados, o MPF e a Funai ainda não tomaram medidas. O Cimi também pretende acionar a Defensoria Pública da União (DPU), assim como entidades indigenistas e os Conselhos Estaduais dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos para fortalecer as denúncias e tentar impedir o loteamento da área. “As famílias da comunidade que lá vivem estão em situação de absoluta vulnerabilidade, dado que a aldeia encontra-se nas margens da estrada”, afirmou.

O coordenador do Cimi denuncia ainda que o interesse na área vai além das famílias que iniciaram o loteamento. “Não se pode deixar de considerar que o processo de loteamento daquela área tem vínculo com interesses econômicos que transcendem as pessoas pobres que lá estão instalando barracos improvisados. Naquele local, há grande fluxo de pessoas, veículos e, bem em frente a área indígena, instalou-se um enorme empreendimento econômico chamado de Bom Lami, com supermercado, agropecuária, madeireira e lojas comerciais das mais diversas. E há, além desse fato, a expansão da cidade de Porto Alegre para a zona rural e os indígenas vêm sendo acusados de ocupar as chamadas ‘áreas nobres’ da Capital e, com isso, impedir a expansão imobiliária e o desenvolvimento”, disse.

Na quarta (21) e na quinta-feira (22), as famílias da comunidade, em articulação com a Comissão Guarani Yvyrupa, irão realizar a ação cultural Teko Porã Tenondeve rã (O futuro do nosso Bem Viver). Serão realizadas exposições de artesanato e apresentações do coral no local (Estrada do Varejão, bairro Lami), bem como apresentações feitas por outras aldeias.

A ação tem como objetivo expressar o fortalecimento e a luta da comunidade pela demarcação de sua terra, fazer plantios de mudas frutíferas e nativas no entorno da comunidade e também denunciar os processos de invasão.