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Brasil de Fato

Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas não tomaram a segunda dose da vacina contra a covid-19, de acordo com dados do Ministério da Saúde desta terça-feira (13), seja pela falta de comparecimento às unidades para receber o reforço ou pela escassez de imunizantes no país.

A ausência da segunda dose, explicou o microbiologista Atila Iamarino em suas redes sociais, pode provocar o surgimento de variantes mais resistentes às vacinas que existem hoje.

“Quem toma só uma dose pode desenvolver imunidade parcial. O que não seria suficiente para proteger a pessoa do vírus. Mas pode ser suficiente para selecionar linhagens virais que escapam dessa imunidade”, afirmou o pesquisador.

Para ele, o estado do Amazonas é o que figura o pior cenário de abandono vacinal: “Tem a receita para criar mais variantes. Mas dessa vez, resistentes à vacina.”

Segundo um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, em termos percentuais, o abandono vacinal é de 14,13% para os brasileiros que estão sendo imunizados com a CoronaVac, que representa 83% das vacinas aplicadas no país.

Por estado, no Amazonas, a taxa sobe para 31,31%, apresentando o maior índice entre os estados, seguido por Roraima (26,12%) e Sergipe (22,97%).

Na outra ponta, figurando os estados com menos abandono vacinal, estão Alagoas (6,34%), Rio Grande do Norte (6,69%) e Espírito Santo (7,63%).

O intervalo entre as duas doses é de 14 a 28 dias para a CoronaVac e de 8 a 12 semanas para a AstraZeneca. Aqueles que perderam o prazo do reforço devem procurar o mais rápido possível uma unidade de saúde para completar o esquema vacinal.

Lembrando que quem tomou a primeira dose da CoronaVac deve tomar a segunda da mesma, assim como para a AstraZeneca.

No total, de acordo com o último balanço do consórcio dos veículos de imprensa, até às 20h desta terça-feira (13), 24.433.064 pessoas receberam a primeira dose, o que representa 11,54% da população brasileira. No entanto, apenas 3,64% da população recebeu a segunda dose (7.717.785 de pessoas). Somando, 32.150.849 doses foram aplicadas em todo o país.

Obstáculo: farmacêuticas multinacionais e suas patentes

Parte da escassez de vacinas no Brasil se deve ao ritmo lento do recebimento de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) de países detentores da tecnologia.

O Instituto Butantan, por exemplo, suspendeu há pelo menos uma semana a produção da CoronaVac devido à falta de insumo, que está previsto para chegar na China somente no dia 20 de abril.

A produção nacional de vacinas contra a covid-19, portanto, enfrenta um obstáculo expressivo: as patentes, ou seja, o controle de tecnologia por parte das farmacêuticas multinacionais.

Em uma carta enviada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e à Organização Mundial do Comércio (OMC), cerca de 240 entidades afirmaram que a solução para garantir doses a todos é a quebra de patentes.

“No contexto da OMC, a renúncia da patente é uma contribuição importante que a OMC pode fazer sobre este assunto na pandemia”, defendem as entidades.

“O licenciamento voluntário, se perseguido, deve tratar a vacina como um bem público global, ser aberto e permitir licenças globais transparentes não exclusivas com cobertura mundial de fornecimento.”

Segundo as entidades, os acordos fechados pela farmacêutica britânica AstraZeneca, priorizada pelo governo de Jair Bolsonaro, por exemplo, estabeleceram medidas restritivas, como o controle sobre a tecnologia e limites de produção.

“O mundo está em um estado de emergência sanitária global, onde as sociedades, economias e meios de subsistência em todo o mundo estão em uma situação terrível. E a maioria das empresas farmacêuticas tem se beneficiado de grandes quantidade de fundos públicos investidos em pesquisa, com pouca ou nenhuma responsabilidade e condições associadas para garantir o acesso”, afirmam.

No Brasil, o governo Bolsonaro não vê a quebra de patentes como uma solução, mas espera dessas multinacionais um acordo voluntário para a transferência de tecnologia.

No Senado Federal, tramita o Projeto de Lei (PL) 12/2021, do senador Paulo Paim (PT/RS) que prevê a suspensão temporária dos direitos de propriedade sobre imunizantes.

“Tal medida, dada a sua excepcionalidade, não implica em ignorar o direito às patentes, mas relativizar esse direito, em caráter temporário, em vista do interesse maior do povo brasileiro, viabilizando a produção de vacinas e medicamentos a custos mais baixos e sustentáveis, no contexto da grave crise fiscal que atravessa o país”, justificou o parlamentar no texto legislativo.

Para ele, “mais do que reafirmar a soberania” do Brasil, trata-se de “uma questão humanitária”.

Enquanto o texto não avança no Congresso Nacional, o Brasil registrou, nesta terça-feira (13), 3.808 mortes por covid-19 nas últimas 24 horas, totalizando 358.425 óbitos desde o início da pandemia, segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Com esses dados, o Brasil chega a 83 dias seguidos com a média móvel de mortes acima de mil; 28 dias, acima de dois mil; e 18 dias acima de 2,5 mil. Agora, algo até então nunca visto: o quarto dia seguido em que a média móvel fica acima da marca de 3 mil.

No último período, foram 82.186 novos casos da doença, somando 13.599.994 brasileiros infectados.

Vacina 100% nacional no horizonte

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o desenvolvimento de uma vacina pelo Instituto René Rachou (Fiocruz Minas) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) concluiu a etapa de prova de conceito com resultados “bastante animadores”.

A fase indica se a vacina em desenvolvimento tem potencial para produzir proteção contra o novo coronavírus. Agora, a pesquisa segue para os estudos pré-clínicos, com testes em macacos e, depois, em humanos, o que deve ocorrer ainda em 2021.

Um dos pesquisadores participantes, Ricardo Gazzinelli afirmou que, no decorrer de 2020, foram utilizadas diversas formas para a produção da vacina. A que se mostrou mais viável foi a técnica de fusão de duas proteínas.

“Usamos uma proteína recombinante (Spyke) e proteína do coronavírus. Fizemos, então, uma proteína, que estamos chamando ‘quimera’, que é a junção dessas duas proteínas em um único antígeno”, explica o pesquisador.