Foto: Alex Rocha | PMPA

Estudo aponta risco maior de contaminação para familiares de alunos com volta às aulas presenciais

Pesquisa feita nos Estados Unidos indica que o risco de contágio pode ser reduzido dependendo das medidas adotadas

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Luciano Velleda | Sul21

Recente pesquisa publicada nos Estados Unidos analisou o risco de contaminação por covid-19 de familiares de professores e alunos após o retorno das aulas presenciais. O estudo envolveu escolas urbanas e rurais, diferentes faixas etárias e aulas em turno integral e parcial — esse período mais próximo da realidade brasileira. A pesquisa foi feita por meio de coleta de dados por questionário com mais de 2 milhões de pessoas.

Publicado no último dia 29 de abril na revista Science, o estudo indica haver um risco aumentado de covid-19 entre as pessoas que vivem com uma criança frequentando a escola em aula presencial. A pesquisa também aponta que medidas de mitigação do contágio estão associadas a reduções de risco, como controle diário de sintomas, uso de máscaras por parte dos professores e não haver atividades extracurriculares. Entre os professores, o estudo conclui que o risco de contaminação também cresce com as aulas presenciais, numa associação semelhante com outras profissões que exigem trabalho presencial.

“Embora a escolaridade presencial esteja associada ao risco de covid-19 doméstico, esse risco provavelmente pode ser controlado com medidas de mitigação baseadas na escola devidamente implementadas”, explica trecho do pesquisa.

“Foi um estudo bem robusto, que exigiu um trabalho de muitas pessoas, com participação de várias universidades americanas e centros de pesquisa epidemiológica”, afirma Melissa Markoski, professora de Biossegurança da Universidade Federal de Ciências da Saúde (UFCSPA) e especialista em Imunologia.

Ao contrário de outras pesquisas com foco maior no risco de contaminação dos alunos e professores, essa analisou o risco do contágio nos familiares dos professores e nos familiares dos estudantes, que podem levar o vírus pra dentro de casa apesar de não desenvolverem formas graves da doença.

“A criança tem carga viral alta, só que o sistema imune dela é bastante eficiente em termos de resposta. Mas em infectividade, em contrair o vírus, a criança contrai como adulto”, explica Melissa.

A professora de Biossegurança da UFCSPA diz que a pesquisa mostra algo que já vem sendo bastante falado desde o surgimento da variante B.1.1.7, na Inglaterra, em dezembro, que surgiu e se espalhou nas escolas. “O estudo corrobora isso, ao dizer que existe risco maior de transmissão para os familiares de professores e principalmente para os pais (dos alunos).”

Embora seja uma redução singela, Melissa enfatiza que a nova pesquisa também reforça o entendimento de que, quando as escolas aplicam as medidas de mitigação indicadas, como uso de máscara entre professores e alunos, distanciamento entre as classes, testagem e ventilação do ambiente, é possível diminuir o impacto do vírus.

Ela avalia que as escolas americanas são bastante heterogêneas, tais como as brasileiras, com instituições melhor preparadas e que conseguem aplicar os protocolos e outras sem a mesma capacidade. A grande diferença é o processo de vacinação, já bastante avançado nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil.

“A pesquisa mostra que o risco existe. E quando a gente faz um paralelo com a realidade do Brasil, é extremamente preocupante porque nossas condições sanitárias são diferentes das deles”, pondera. Melissa diz que mesmo a frequente comparação com as escolas abertas na Europa é indevida, pois nos países europeus, com menos casos de aumento de mortalidade as medidas adotadas são mais rígidas.

A professora da UFCSPA recorda que um dos argumentos usados pelo governo de Eduardo Leite (PSDB) para reabrir as escolas é a necessidade dos pais que não têm onde deixar os filhos enquanto saem pra trabalhar. Melissa questiona por que não foram feitas então ações para minimizar essas dificuldades.

“Uma coisa é ter uma ou outra creche controlável pra cuidar das crianças, outra é você, de um momento pro outro, abrir para o retorno de duas milhões de crianças. Se um terço disso voltar, já temos cerca de 700 mil crianças. E se cada pessoa pode contaminar outras seis, onde vamos parar?”, indaga.

Melissa pondera que a reabertura das escolas vai misturar crianças de famílias que se cuidam com outras de famílias que não se cuidam tanto, uma situação que pode prejudicar esforços e sacrifícios feitos ao longo mais de um ano de crise sanitária.

Protocolos

A professora de biossegurança da UFCSPA também minimiza a preocupação com o uso de termômetro e limpeza de sapatos, enquanto o mais importante para diminuir o risco de contaminação aérea do vírus é o uso de máscaras de melhor qualidade e a ventilação das salas. “Estamos entrando no inverno. Como vai ser? Será que vão deixar as janelas abertas às 7h pra ventilar a sala com as crianças passando frio?”, pergunta.

O uso de máscara de boa qualidade, preferencialmente a chamada PFF2, é considerada fundamental para o possível sucesso da mitigação do contágio. O Cpers-Sindicato tem criticado duramente a qualidade das máscaras entregues pelo governo de Eduardo Leite (PSDB) para uso na rede pública estadual.

“Seria fundamental nesse momento usar PFF2. Vi máscaras entregues em alguns municípios que realmente não servem pra nada. A máscara é o melhor objeto de proteção que temos, então, no mínimo, uma máscara profissional deveria ser entregue pra todos os profissionais de educação. E buscar vacina pra eles, o quanto antes”, afirma Melissa.

A professora destaca ainda que os educadores precisariam ser todos testados e repetir o teste uma semana depois, para conseguir detectar e isolar casos positivos logo no começo da reabertura das escolas.

O distanciamento entre as classes dos alunos, determinado pelo governo Leite como 1,5 metro, é outro fator questionado pela especialista em imunologia. Melissa explica ser uma medida importante, mas muito mais significativo é cuidar a ventilação das salas de aula.

“O distanciamento de um metro e meio entre as classes é quase pífio, porque o que importa é o ar que as crianças estão liberando no ambiente. Um metro e meio ou dois metros entre as classes é importante pra não cair gotículas maiores, mas muito mais importante é ventilar a sala. E haver comprometimento. Não adianta os profissionais verem isso no papel e não seguir. É uma disciplina complexa.”