Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Risco de trombose com cigarro e anticoncepcional é muito superior do que com vacina

Dúvidas envolvendo a vacina AstraZeneca têm feito pessoas negarem o imunizante. Especialistas reafirmam a segurança da vacina.

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Luciano Velleda | Sul21

“A vacina é segura na população em geral.” A afirmação é do médico Eduardo Sprinz, chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e responsável pelos testes clínicos na instituição da vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford e o laboratório AstraZeneca.

O imunizante tem sido notícia envolvido em dúvidas com relação a sua segurança. Primeiro foi a suspeita com coágulos em pessoas recém vacinadas em alguns países europeus. A vacinação foi suspensa por alguns dias e depois retomada, sem que as investigações conseguissem comprovar relação entre os casos relatados e a vacina.

No Brasil, na última semana, a morte de uma gestante no Rio de Janeiro levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a orientar a suspensão do uso da vacina da AstraZeneca em mulheres grávidas e puérperas.

Sprinz explica que as investigações apontam poder haver uma condição rara em mulheres abaixo dos 50 anos de idade, talvez na proporção de um evento adverso para cada 250 mil vacinadas. Essa condição é a formação de coágulos associada com a diminuição das plaquetas, que servem pra ajudar a coagular o sangue. “Isso, infelizmente, é uma coisa extremamente rara”, afirma.

O infectologista destaca que ainda não há nenhum estudo do uso das vacinas contra a covid-19 em gestantes. Por enquanto, há o acompanhamento preliminar em gestantes vacinadas com o imunizante da Pfizer nos Estados Unidos e, em menor número, em Israel. Os dados até o momento são observacionais e preliminares. Um estudo de fase 2 com a vacina da Pfizer será ampliado para fase 3, o que deverá dizer se o imunizante é seguro ou não em gestantes.

Por sua vez, Sprinz explica que a tecnologia usada na vacina Coronavac, com vírus inativado, é mais antiga, já bem conhecida e amplamente usada em gestantes vacinadas para outras infecções. “Embora ela nunca tenha sido testada contra a covid, a gente imagina que, provavelmente, ela seja mais segura.”

Para as gestantes que irão tomar a primeira dose, em Porto Alegre está sendo aplicada a vacina da Pfizer.

O responsável pelos testes clínicos da vacina AstraZeneca no Hospital de Clínicas propõe outro pensamento quando o tema é o risco de coágulos. Sprinz explica que a trombose é “muito mais comum” em pessoas que fumam e em mulheres que tomam anticoncepcional.

“Obviamente, quem tem covid, tem uma chance absurda em ter trombose. Então, certamente, os benefícios da vacina são muito, muito, muito superiores aos riscos, infinitamente superiores”, afirma, com convicção. O médico ainda enfatiza que a vacina AstraZeneca, provavelmente, protege contra a variante P.1, a chamada variante de Manaus, predominante hoje no Brasil.

Por outro lado, o infectologista diz que o imunizante de Oxford/AstraZeneca parece ter “inimigos”, sendo a única vacina no mundo ocidental sem relação com os Estados Unidos. “Sempre brinquei que a vacina de Oxford parece o ‘patinho feio’. Sempre tem uma coisa com ela, e isso parece ser muito mais os ‘inimigos’ não querendo que ela seja usada do que qualquer outra coisa. Lembrando que, de todas as vacinas que a gente dispões no mundo ocidental, todas têm origem em associação, ou não, com os Estados Unidos, exceto a vacina de Oxford.”

Benefícios
Diretora-adjunta da Vigilância em Saúde da Prefeitura de Porto Alegre, Fernanda Fernandes compreende que as recentes notícias envolvendo a AstraZeneca causam receio na população, até pelo fato das pessoas não entenderem plenamente a situação. Ela destaca que a boa prática científica orienta que se suspenda o uso quando houver suspeita de evento adverso, até que seja possível avaliar melhor. “Agora, o benefício da vacina supera o risco,”, afirma.

Fernanda diz que, até o dia 11 de maio, houve 980 mortes de gestantes no Brasil, média de 34 óbitos por semana epidemiológica. Em comparação, em 2020, foram 10 mortes por semana epidemiológica. O risco de morrer por covid-19, ela reforça, tem sido muito grande.

“Então em função de um caso, e que ainda não está solucionado, a Anvisa suspendeu o uso da vacina até investigar melhor. A gente tem certeza de que a vacina é segura. Em Porto Alegre não tivemos nenhum evento grave com a vacina da AstraZeneca. Esses eventos são muito raros, e ainda não estão confirmados. Então, obviamente, saindo na mídia, a população fica com receio e, em alguns casos, recusa a AstraZeneca”, analisa.

A diretora-adjunta da Vigilância em Saúde lembra que no começo da vacinação, a recusa ocorria com a vacina CoronaVac, e agora a situação se inverteu. Para melhor informar a população, a Prefeitura tem investido na comunicação, explicando os fatos e reforçando a segurança da vacina para a população em geral. E assim como o infectologista Eduardo Sprinz, Fernanda reforça o risco muito superior de trombose causada por outros produtos.

“A gente tem outras condições que podem levar a eventos trombólicos, como cigarro, o uso de anticoncepcional e a própria gestação é uma situação que favorece a manifestação desses eventos de forma geral na população. Então o risco da vacina é muito inferior a qualquer uma dessas possibilidades. O benefício da AstraZeneca supera o risco, que também ainda não está confirmado”, pondera.

Monitoramento

Com certa tranquilidade na voz, a biomédica Mellanie Fontes-Dutra comenta que o relato de evento adverso não é algo fora do normal, até porque são milhões de pessoas sendo vacinadas e, portanto, a probabilidade de alguma situação acontecer existe. Por isso é importante investigar se a vacina realmente teve ou não alguma interferência.

Pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19, ela avalia que a suspensão temporária após possíveis eventos de trombose na Europa parecem ter tido mais destaque do que o retorno da vacinação com a AstraZeneca nos mesmos países.

“Depois de vários estudos, feitos de forma independente e também pela própria farmacêutica, não se conseguiu chegar numa relação de causa e consequência entre os eventos de trombose e a vacina da AstraZeneca. Não há comprovação científica de que os eventos estão ligados”, afirma.

Mellanie reforça ser correta a suspensão temporária determinada pela Anvisa após o caso ocorrido no Rio de Janeiro e destaca como positiva a capacidade do sistema de saúde em acompanhar e captar possíveis eventos adversos. “Nosso sistema de segurança está funcionando. É muito melhor ter um sistema que capta e consiga estudar no detalhe, do que os eventos estarem passando sem serem rastreados.”

A coordenadora a Rede Análise Covid-19 ainda lembra que a bula da AstraZeneca não prevê o uso em gestantes sem orientação médica, justamente para avaliar riscos e benefícios conforme o histórico de saúde da pessoa.

“Nesse momento temos que se a ter aos dados, ao que a gente sabe, e aguardar novas informações. A sequência em que esses eventos são relatados estão numa esfera de muito raro e não tem relação comprovada com a vacina até o momento.”