Sem estudo, nova ponte Imbé-Tramandaí deve ser construída em habitat de botos ameaçados – Porto Alegre 24 horas

Sem estudo, nova ponte Imbé-Tramandaí deve ser construída em habitat de botos ameaçados

Em reportagem do Matinal News, cientistas alertam que ponte ameaça interação cooperativa rara entre botos e pescadores
Foto: Divulgação | Ceclimar

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Cientistas alertam que ponte financiada pelo governo Leite ameaça área conhecida por interação cooperativa rara em que botos e pescadores se ajudam na pesca de tainhas; prefeito de Imbé rechaça riscos e defende a obra. Informação é do Matinal News.

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A golfinho Geraldona tem quase 40 anos e vive na região costeira próxima à desembocadura em que o rio Tramandaí deságua no mar, no Litoral Norte gaúcho. Batizada por pescadores locais que a reconhecem pelo formato de sua nadadeira dorsal e catalogada por cientistas da UFRGS, Geraldona é uma das protagonistas de uma parceria rara no mundo, em que humanos e botos selvagens ajudam uns aos outros na pesca de tainhas, prática chamada de “pesca cooperativa”. O fenômeno só ocorre em três locais: em Mianmar, país do sudeste asiático; na cidade de Laguna, no litoral catarinense, e na barra que divide os municípios de Imbé e Tramandaí. Este é o exato local em que está prevista a construção de uma ponte, anunciada na semana passada por meio de uma parceria entre o governo Leite e a prefeitura de Imbé.

Por conta disso, a interação rara que ocorre na região desde os anos 1960 entre pescadores locais e cerca de quatro gerações da família de Geraldona pode ser extinta a partir deste ano. “Temos muitas evidências que indicam que a construção da ponte vai decretar o fim da pesca cooperativa. Em vários lugares em que houve obras parecidas, os botos foram embora”, alerta Ignacio Moreno, professor da UFRGS e coordenador do projeto Botos da Barra, que pesquisa a pesca cooperativa e a comunidade de golfinhos da região. O convênio de financiamento assinado por Leite prevê até R$ 40 milhões para a construção da ponte, que deve começar em dezembro deste ano. A obra é um sonho antigo da comunidade litorânea já que a infraestrutura atual, a ponte Giuseppe Garibaldi, não dá conta do tráfego no verão e está degradada, causando engarrafamentos na alta temporada de turismo na região, quando milhares de gaúchos vão à praia.

Apesar dos alertas de cientistas, o prefeito de Imbé, Ique Vedovato (MDB), nega que a obra vá ameaçar os botos. Por causa disso, diz que uma consulta informal à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) garantiu que nem sequer são necessários estudos de impacto ambiental (EIA/RIMA), obrigatórios por lei para obras de grande impacto, para realizar a construção.

Como o plano do prefeito inclui duas pontes, na desembocadura em que habitam os botos e outra na Lagoa do Armazém, a licença será dois em um. “Segundo o que a Fepam nos disse, liberaremos as obras por meio de um licenciamento online simplificado, bem mais rápido, simples e barato. Então vamos ter a licença ambiental dessas duas pontes pronta em quatro meses. A ideia inclusive é ter isso antes do projeto base-executivo em mãos”, comemora Vedovato. Enquanto a primeira ponte terá financiamento do Estado, a segunda, que ainda não tem previsão para o início das obras, será construída com dinheiro do governo federal, destinado à região por meio de emendas da bancada gaúcha na Câmara.

Para rebater temores dos cientistas, Vedovato afirma que no local da barra em que será construída a nova ponte havia a antiga ponte da Sardinha, demolida há 15 anos. “Era uma ponte com um número bem maior de colunas e que não atrapalhava em nada a pesca cooperativa, muito pelo contrário”, garante. Pesquisadores, no entanto, apontam que a antiga travessia era de passeio, para pedestres e ciclistas, em nada comparável com o novo projeto, de uma ponte dupla com quatro vias rodoviárias e capaz de sustentar veículos de carga pesada, cuja vibração das colunas que estiverem na água pode se espalhar pelo estuário e perturbar a ecolocalização dos golfinhos. Vedovato duvida dos riscos e desafia que os biólogos da UFRGS “coloquem no papel a responsabilidade técnica daquilo que estão dizendo”. “Eu prefiro acreditar no que eu vi no passado quando era criança, adolescente, o convívio do boto e do pescador com as embarcações do que em uma teoria sem embasamento nenhum”, dispara.

Ocorre que boa parte desses alertas já está cientificamente documentada. Uma dissertação de mestrado de 2019 mensurou os impactos ambientais de um ponte no habitat dos botos e chegou à conclusão que a obra tem o potencial de extinguir a pesca cooperativa, patrimônio de relevância cultural do Estado desde 2020. “É um ecossistema extremamente frágil, com muitas variáveis. Qualquer intervenção tem que ser muito bem avaliada. Essa tendência que alguns agentes públicos têm de simplificar matérias complexas é muito complicada”, lamenta o biólogo Yuri Camargo, pesquisador-colaborador do projeto Botos da Barra e autor da dissertação.

Para se ler o restante do conteúdo acesse o link:
https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/reportagem-matinal/ponte-imbe-tramandai-ameaca-botos/

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