‘Decisão política’: Especialistas avaliam liberação da máscara em lugares fechados

‘Decisão política’: Especialistas avaliam liberação da máscara em lugares fechados

Combinação de variante mais contagiosa com flexibilizações no momento errado pode causar aumento de casos e mortes
Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil

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Do Sul21

Ao completar dois anos do início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o Rio Grande do Sul e outros estados do País entram numa nova fase da crise sanitária ao flexibilizarem o uso de máscara em ambientes abertos e, principalmente, em ambientes fechados. A medida foi sendo adotada nas últimas semanas após a diminuição dos novos casos e melhora nos dados de internações hospitalares depois da fortíssima onda de contaminação causada pela variante ômicron desde o final de 2021. O contexto da população cansada e do uso já não vir sendo muito respeitado facilitou a decisão dos governantes.

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Apesar da melhora recente nos indicadores da pandemia, o cenário ainda é de incerteza. Por um lado, estados como o Rio Grande do Sul e a cidade de Porto Alegre apresentam boa cobertura vacinal da população com duas doses, fator que especialistas concordam permitir já não usar máscara em ambientes ao ar livre, desde que sem aglomerações. Porém, a flexibilização em ambientes fechados causa apreensão e até desalento entre alguns especialistas ouvidos pelo Sul21.

Para o médico Eduardo Sprinz, chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), a decisão de desobrigar o uso de máscara em ambientes fechados é muito mais uma decisão política, com provável viés de obter ganho eleitoral, do que ancorada no bom senso.

Sprinz pondera que o atendimento nos hospitais e a taxa de positividade de covid-19 nos dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG) estão estáveis nas últimas semanas e que o melhor seria esperar mais tempo para avaliar se haverá tendência de crescimento de novos casos.

Por sua vez, a bióloga e imunologista Cristina Bonorino é enfática em criticar a flexibilização do uso de máscara em ambientes fechados no atual momento da crise sanitária. Ela recorda que no começo da pandemia pouco se sabia sobre o novo coronavírus, e que ao longo dos últimos dois anos muito foi sendo aprendido. A liberação das máscaras agora, ela lamenta, é como ignorar todo o conhecimento acumulado sobre o crise sanitária.

“Hoje a gente sabe exatamente o que fazer. E pra acabar com a pandemia, não é tirando máscara. Isso é absolutamente inacreditável”, afirma. Ela critica a flexibilização das máscaras em ambientes fechados como sendo uma decisão eminentemente política e não de saúde pública. “A gente sabe o que não fazer. Então por que fazer? É muito triste ver isso.”

Professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Cristina afirma que a pandemia um dia vai acabar e que é sabido o que precisa ser feito para que esse dia chegue. A questão, todavia, é fazer a coisa certa, como vacinar a população mundial. Enquanto houver países sem acesso aos imunizastes ou outros com baixa cobertura vacinal, a tendência é de que novas variantes surjam. E não há nenhuma garantia de que novas variantes serão mais brandas.

“Estamos voltando para uma visão individual num momento em que se precisa de atitude coletiva. É decepcionante ver pessoas que tiveram um comportamento melhor durante a pandemia, jogar tudo isso fora agora. Só que com a vida dos outros”, se revolta a professora, também membro do comitê científico e clínico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

Se o atual momento já permite flexibilizações na rua, parques e áreas ao ar livre, desde que sem aglomerações, ambos os especialistas dizem que o sinal verde para não usar mais máscara em lugares fechados agora é uma atitude política, para apaziguar eleitores em ano de eleição.

Nova onda
Países asiáticos como China, Coréia do Sul e Hong Kong enfrentam atualmente uma alta expressiva no número de casos causada pelo vírus B.A2, uma subvariante da ômicron, ainda mais contagiosa.

Segundo o infectologista Eduardo Sprinz, coordenador dos estudos da vacina de Oxford/AstraZeneca no RS, a situação é consequência desses lugares ainda não teriam sido afetados pela ômicron, ao contrário dos países europeus ou mesmo o Brasil. No caso de Hong Kong, que sofre agora com alta taxa de mortalidade, a chegada da variante ainda encontrou uma população idosa não vacinada, o que tornou o momento mais grave.

Sprinz pondera que na Europa, a subvariante da ômicron tem causado nova onda de aumento de casos, mas isso não tem se refletido em aumento de mortes na mesma proporção devido à cobertura vacinal e ao uso de novos medicamentos que evitam a progressão do doente para um quadro grave. No Brasil, apenas um desses remédios está disponível, o Rendesivir, que deve ser usado nos primeiros cinco dias da infecção. O medicamento, porém, é caro.

No caso do Brasil, o cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt, tem alertado que a análise dos gráficos da situação da crise nos estados já aponta para a estabilização da queda de novos casos, ainda em patamar alto. A estabilização pode significar o que os especialistas chamam de “reversão de tendência”, ou seja, o início de um possível aumento da contaminação.

Sprinz avalia que, caso se confirme tal aumento no Brasil, causado pela subvariante B.A2, a onda de mais contágio será continuação da ômicron. A diferença, ele destaca, é que agora o possível aumento da contaminação encontrará uma população desprotegida sem a máscara.

“Não imagino que seja uma nova onda, segue sendo a onda da ômicron, e também é consequência das medidas de flexibilização”, explica.

Por isso, o infectologista e professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alerta para a importância das pessoas tomarem a terceira dose da vacina. A perda da imunidade é ainda mais relevante em quem tomou as duas doses há mais de seis meses.

Cristina Bonorino avalia que a flexibilização geral do uso de máscara, combinado com a subvariante mais contagiosa da ômicron, deverá sim aumentar o número de casos no RS nas próximas semanas e meses. A alta taxa de vacinação dos gaúchos com duas doses deverá conter o aumento de vítimas fatais, com as pessoas pertencentes ao grupo de risco – idosos, imunussuprimidos e com comorbidades – sendo as mais desprotegidas.

“Pela taxa de vacinação, seria esse a ideia, mas é sempre imponderável saber como vai ser…qual vai ser a variante…há muitas coisas imponderáveis e, por isso, o certo é não correr risco”, conclui.

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