Imagem: Quadro de Juan Manuel Blanes/reprodução

Opinião: Por que não podemos questionar o hino?

Hino rio-grandense já foi alterado na década de 1960 e se faz necessária, pelo menos, a discussão do mesmo

Compartilhe esta notícia

Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on email
Share on whatsapp

Por Adriano Nicotti

Quem canta e defende o hino rio-grandense não é racista, o debate sobre a estrofe preconceituosa desta composição não quer estigmatizar ninguém. Vivemos numa época onde, teoricamente, não há mais espaço para escravidão e, com isso, nos permitimos ampliar as interpretações da fala “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

Mas vale lembrar que o hino gaúcho se refere a uma guerra que ocorreu num período onde havia escravidão, e os negros eram os escravizados. Um dos líderes farroupilha, Bento Gonçalves, possuía escravos e, inclusive, deixou de herança seus cativos para servirem aos seus herdeiros.

Ou seja, aqueles homens, que hoje dão nomes as nossas ruas e conquistaram uma data oficial em nosso calendário, consideram, segundo o hino, o povo negro como um povo sem virtude, afinal, foram escravizados.

Outro ponto, que torna inaceitável tal estrofe, é que deposita a culpa da condição de escravo a vitima, que esta nessa situação por não ter virtude. Como assim? Quem não tem virtude não acaba por ser escravo, quem não tem virtude escraviza!

Esses são pontos que valem ser sublinhados e que dão motivos de sobra para que a comunidade negra se sinta ofendida. Vivemos em uma sociedade que deve prezar pela fraternidade, se temos irmãos que estão se sentindo incomodados com alguma situação, é DEVER nosso, pelo menos, discutir o assunto para tentar suprimir esse incômodo. Qual problema de falarmos sobre o assunto? Conservadores mais radicais não querem nem pensar na ideia de debate. Por quê?

Aliás, nosso “valoroso” e “intocável” hino já foi alterado. Na década de 1960 foi retirada uma estrofe que mencionava a democracia ateniense. Como tal estrofe não tinha nada a ver com a história contada na canção, nem com o povo gaúcho, foi suprimida de comum acordo e sem polêmica. Por que agora essa resistência em retirar ou mudar uma parte de cunho racista? Será que é porque ela diz muito sobre nosso povo? Será que vamos aceitar que somos racistas? São essas façanhas que queremos que sirva de modelo?

Somos seres em constante evolução, as coisas precisam mudar para que sigamos o caminho do progresso social e humanitário. Não sejamos atávicos, certas correções não reescrevem a história, apenas agregam mais valor a nossa cultura.

Imagem em destaque

A imagem destacada que usei para ilustrar esse texto é de um lanceiro negro, negros que atuaram na linha de frente na guerra dos Farrapos. Lutaram por uma liberdade que nunca veio. E como que viria? Se seus senhores os julgavam sem virtudes para gozar de uma vida livre. Suas virtudes se limitavam a força física e a disposição de morrer por uma mentira.

Questionar tudo isso não te faz menos gaúcho, caro leitor. A cultura gaúcha é mais antiga que a guerra liderada por Bento Gonçalves. Antes mesmo de 1835 já haviam gaúchos vagando pelos campos desta terra meridional e tomando a tradicional bebida dos índios, o chimarrão. Sim, o chimarrão tem origem indígena, mas não vamos entrar em outra polêmica, ok?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Porto Alegre 24 Horas