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Luís Eduardo Gomes | Sul21

A cidade de Criciúma (SC) tornou-se, na madrugada de terça-feira (1º), palco de uma verdadeira noite de terror, com cenas comuns a filmes policiais, durante o assalto a uma agência do Banco do Brasil por cerca de 30 homens encapuzados e fortemente armados. Por cerca de duas horas, o grupo conduziu uma ação criminosa em que disparou tiros contra um batalhão da Polícia Militar, fez reféns como escudo humano, usou explosivos para detonar a porta de cofres e fugiu em um comboio de dez carros, deixando malas de dinheiro para trás.

Um crime que tem sido classificado como “Novo Cangaço”. Professor da Universidade Federal do Ceará e coordenador do Laboratório de Estudos de Violência, que estuda as práticas de organizações criminosas, Cesar Barreira explica que este tipo de crime é chamado de “Novo Cangaço” porque traz elementos comuns à atuação de bandos armados que atuavam no interior do Nordeste até o início do século passado, os chamados cangaceiros.

“O Novo Cangaço, de certa forma, reproduz algumas características do movimento cangacerista do início do século passado, que seria o sitiar a cidade, no sentido de proibir circulações, e a tocaia. Essas são as duas grandes características que nos levam a classificar o Novo Cangaço”, diz.

Barreira destaca que outra característica comum a esse tipo de crime é que, em geral, ele ocorre em cidades menores, de interior, onde os reduzidos efetivos policiais locais têm mais dificuldade para enfrentar criminosos fortemente armados. Neste sentido, o episódio de Criciúma seria uma verão mais cinematográfica da prática.

Titular da 1ª Delegacia de Polícia de Repressão a Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o delegado João Paulo de Abreu avalia que o roubo de Criciúma vai além do que se costuma classificar como Novo Cangaço no Rio Grande do Sul pela forma como o grupo agiu, com maior quantidade de pessoas, pelo local atacado, que é um depósito de valores do Banco do Brasil, e pelo tipo de explosivo. “O Novo Cangaço é essa questão do sitiamento da cidade, do emprego de reféns, da obstaculização das forças policiais como eles fizerem, promovendo disparos e cercando os batalhões da PM para que não haja o emprego das forças policiais”, afirma.

Chefe de Comunicação Social da Brigada Militar, o tenente-coronel Cilon Freitas da Silva destaca que esse tipo de ataque a banco esteve em voga no Rio Grande do Sul em meados da década, mas que está em queda nos últimos anos.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) não traz levantamentos específicos sobre as ações enquadradas dentro do conceito de Novo Cangaço, mas aponta que, entre janeiro e outubro de 2020, os ataques a bancos caíram 58% no Rio Grande do Sul, mantendo uma tendência de queda nos últimos quatro anos. Neste período de 2020, foram 42 ataques a bancos. No mesmo período de 2016, foram 243, quase seis vezes.

Cilon diz que, em 2020, apenas um ataque do tipo ocorreu. Ele atribui esse resultado à Operação Angico, que teve como foco desbaratar quadrilhas a partir de ações de inteligência policial e monitoramento de pessoas especializadas na prática. Ele explica que a operação envolve também ações do Comando Ambiental de fiscalização de pedreiras e outros locais autorizados a utilizar explosivos para evitar que esses artefatos sejam desviados para os grupos criminosos.

“Há todo um planejamento estratégico e tático de disposição das nossas forças especiais para que haja uma pronta resposta ou uma intervenção imediata a partir do acionamento das informações de inteligência no sentido de evitar ou impedir o deslocamento dos criminosos e a concepção do crime”, afirma o tenente-coronel.

Quem são os criminosos

Ao contrário dos cangaceiros originais, o Novo Cangaço é uma prática que não está restrita a uma única região do País, já tendo sido registrada em diversos estados. A partir do estudos realizados na UFC, o professor Cesar Barreira destaca que nem sempre esses crimes são praticados por membros de facções, podendo ter pessoas contratadas “por trabalhos”.

“Às vezes, esses grupos se formam especificamente para um ação. Terminou a ação, desaparece o grupo, não necessariamente eles continuarão enquanto grupo numa característica como as facções, que têm ritual de entrada, a questão do batismo, de pertencer ao Comando Vermelho, o PCC ou a facções locais, que tem um caráter mais permanente”, diz. “Podem ser grupos passageiros. É claro que são sempre pessoas que fazem parte do ‘mundo do crime’, que não necessariamente é uma coisa tão clara, e vão sendo agregadas à ação. Conhecidos, parentes, pessoas que denotam a possibilidade de você ter confiança. A lealdade é uma característica muito forte das práticas que aconteciam no início do século passado”.

No Rio Grande do Sul, o tenente-coronel Cilon afirma que há quadrilhas especializadas nesse tipo de crime que não estão relacionadas a facções que atuam no tráfico de drogas. “Mas é caso a caso, seria temerário afirmar que tem ligação ou não. E claro que quadrilhas organizadas se interconectam e migram de uma atividade criminal para a outra”, diz.

Ele ressalta, contudo, que são crimes que exigem grande preparação. “Para organizar um crime de porte, eles não falam ‘vamos fazer um assalto a banco ali’. São criminosos que se preparam, fazem análises, monitoramento, não são grupos que contam com a sorte. A nossa missão é tentar antecipar a ação deles, evitando o crime”, afirma.

João Paulo de Abreu afirma que, há alguns anos, a Polícia Civil do RS havia identificado quadrilhas que atuavam especificamente neste tipo de crime, com nomes de criminosos se repetindo entre uma ação e outra. Contudo, pontua que, recentemente, é comum que os ataques sejam conduzidos por uma ou duas pessoas com experiência e outras sem envolvimento prévio em ações semelhantes. “Com pessoas sendo presas, sendo mortas, você tem um ou outro indivíduo que tem o conhecimento prévio, de lidar com explosivos, mas eles buscam arregimentar pessoas que por vezes nunca praticaram um roubo daquela modalidade e acabam participando da ação criminosa”, diz.

Contudo, o delegado afirma que esse tipo de ação de maiores proporções, como a de Criciúma, não ocorreu ainda no Estado, tendo precedentes apenas em cidades do interior de São Paulo e em estados vizinhos, como Paraná e Minas Gerais. Geralmente, relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa paulista que, suspeita-se, pode estar envolvida com o ataque de Criciúma.

“Em se falando de PCC, não se duvida da participação de pessoas egressas das Forças Armadas e até mesmo ex-policiais, isso não é desconhecido e não se pode deixar de trabalhar com essa hipótese. Se tem a notícia deles buscando treinamento militar e até mesmo fora do Brasil, com grupos guerrilheiros que atuam ou atuaram em países vizinhos”, afirma.

O professor Barreira chama atenção também para o fato de que há um grau alto de racionalidade por trás desses crimes. “Essa racionalidade decorre de um cálculo que envolve o lucro que essa ação vai dar como retorno e a menor possibilidade de haver mortes ou prisão. Se você tem maior chance de ser preso ou morto, você não entra na ação. Se o ganho é pequeno, também não entra. Então, existe todo um cálculo racional. Eles vão calcular o horário que ocorre, qual é a cidade que ocorre. Deve ter havido vários estudos para fazer isso em Criciúma”, diz.

Carros usados no assalto e na fuga foram abandonados por criminosos | Foto: Divulgação/Polícia Civil

Inteligência é a melhor prevenção

Os especialistas ouvidos para esta reportagem são unânimes em dizer que a melhor forma de combater esse tipo de crime é atuando previamente para que eles sejam evitados.

O delegado João Paulo avalia que, ações como a de Criciúma até mesmo ultrapassam a possibilidade de reação das forças policiais. “O calibre .50, que foi utilizado ali, se tu usar contra uma pessoa, arranca pedaços. Não há como uma guarnição, duas, três ou quatro, enfrentarem esses criminosos porque realmente o dano que pode ocorrer ali, não só de policiais, mas também de vizinhos e moradores, é muito grande. No local em si, é uma situação bem complicada”, diz.

O tenente-coronel Cilon também pontua que, sempre que esses ataques ocorrem, eles são experiências traumáticas para as cidades. “Por mais que ele seja frustrado, como já ocorreu no Estado, e os criminosos não consigam levar o dinheiro dos bancos, por alguma falha deles ou por ação exitosa da segurança, sempre fica marcado, a cidade fica com uma sequela de medo, de preocupação, por ver cenas de pessoas armadas circulando pelas ruas. E, mesmo quando há um combate pela polícia, sempre vai gerar uma situação mais complicada na cidade”.

O delegado afirma que é possível evitar que crimes como o de Criciúma ocorram, mas que, para isso, é preciso trabalhos de investigação que envolvem vários fatores. Um deles é o investimento em tecnologia. “Hoje, pela forma como os criminosos conversam, ou quando você consegue reunir dados sobre esses grupos criminosos, você tem uma vastidão de informações que precisa de recursos tecnológicos para analisar tudo isso. Nem sempre esses recursos estão disponíveis”, diz.

Outro elemento que ele aponta é a necessidade de parceria com o Poder Judiciário e com o Ministério Público para possibilitar o avanço de investigações. “Porque você vai trabalhar com investigações, na maioria dos casos, por intermédio de informações sigilosas, informações que você pode só acessar a partir de decisões judiciais que levantam sigilo. Então, se o Judiciário não defere essas medidas ou não defere na rapidez que deveria ter, por óbvio que evitar o fato é difícil. Você precisa de celeridade. Vem uma informação, você precisa para hoje”, diz.

Por fim, destaca que também é importante a participação da sociedade denunciando. “Será que ninguém percebeu a movimentação desses grupos ou desses carros em data próxima ali na região? Se percebeu, seria bom que antes mesmo denunciasse. Achou estranho aquele carro na cidade, aquelas pessoas? Denuncie. Porque, às vezes, essa denúncia vai resultar na identificação desse grupo planejando a ação criminosa”.

Para Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor da Escola de Direito da PCURS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança, chama a atenção o fato de que, aparentemente, o episódio de Criciúma tenha “pego de surpresa” as forças de segurança.

“É importante que se discuta como uma situação como essa possa ter acontecido, com armamento pesado, sem que houvesse nenhum tipo de antecipação por parte das forças policiais, especialmente do Estado de Santa Catarina, mas também da Polícia Federal, na medida que esses grupos possivelmente circularam entre estados. Isso chama a atenção. Tem todo um discurso do governo federal de combate ao crime, mas que tem muita pouca eficácia, tanto pela questão da flexibilização das armas, quanto pela falta de iniciativas que levem à melhoria da investigação, à melhoria de integração de esforços, especialmente entre a Polícia Federal e as polícias estaduais”, diz.

Já o delegado João Paulo acredita que ações da envergadura do que ocorreu em Criciúma, por um lado, também são resultado de operações policiais que têm enfraquecido as organizações criminosas, especialmente pelo combate à lavagem de dinheiro e por operações que aprendem vultuosas quantias.

“O trabalho está sendo feito. Estão se desarticulando organizações criminosas, buscando patrimônio adquiridos nesses crimes. Quando você tira o dinheiro dos criminosos, é óbvio que eles vão atrás de mais dinheiro. Há uma tendência de se valorizar nos últimos anos as investigações desses crimes de lavagem de capitais. Só que você também não pode esquecer que o criminoso violento vai continuar a agir, especialmente esses ligados ao tráfico de drogas, ao tráfico internacional de drogas, organizações criminosas que atuam no Brasil e fornecem drogas para fora. Uma vez perdendo esse patrimônio, perdendo dinheiro, onde está o dinheiro mais acessível em espécie? Vai estar no banco, especialmente nessas bases de transporte de valores”, afirma.