Foto: Cristine Rochol/PMPA

Enfermeira é agredida por filho de paciente em UPA de Porto Alegre

Agressão ocorreu na UPA Moacyr Scliar, localizada na zona norte de Porto Alegre

Compartilhe esta notícia

Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on email
Share on whatsapp

Luís Eduardo Gomes | Sul21

A enfermeira Daniela da Motta Esteves registrou um boletim de ocorrência na noite de quarta-feira (24) após ser agredida pelo filho de uma paciente que passava pela sala de triagem de covid-19 na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Moacyr Scliar, localizada na zona norte de Porto Alegre. A agressão teria sido motivada pelo fato de a paciente estar estável e não precisar de atendimento imediato no local, o que teria irritado o agressor.

De acordo com o boletim de ocorrência registrado na 3ª DPPA de Porto Alegre, a Polícia Militar foi acionada para atender uma ocorrência de “desacato a um funcionário público no âmbito de suas funções e lesões corporais” no interior da UPA. No local, testemunhas informaram que a mãe do agressor estava sendo atendida pela enfermeira e que ele se exaltou após a classificação de risco da paciente ser inserida no sistema.

O BO registra que o homem empurrou a enfermeira, encurralando-a entre o computador e a parede da sala de triagem, desferiu um tapa no rosto e apertou os braços da profissional, ao mesmo tempo em que pronunciava ofensas e palavras de baixo calão. Ainda segundo a ocorrência, o suspeito disse que a profissional estava agressiva e por isso teria ficado nervoso, mas negou a agressão. A Polícia Militar chegou ao local apenas após o agressor ter sido controlado por outros profissionais da UPA. Ele foi levado para a DPPA e, posteriormente, liberado. A vítima fez o exame de corpo de delito.

Em conversa com o Sul21 nesta sexta-feira, Daniela afirma que o episódio ocorreu por volta das 21h30 de quarta. Ela conta que recém havia começado a verificar os sinais da paciente quando o filho dela começou a ficar nervoso e a partir para cima da enfermeira. “Ele já chegou com aquele espírito, irritado por nada, já brabo”.

A enfermeira diz que, como a sala de classificação de risco é pequena, tem uma mesa com um computador e uma cadeira para a paciente, acabou encurralada pelo agressor, que estaria indignado porque a saturação de oxigênio medida na hora seria de 94, enquanto, em casa, ele teria medido 89. “Ele enfiou o dedo na minha cara. Aí eu disse: ‘só um pouquinho, não precisa enfiar o dedo na minha cara’. Aí ele deu um tapão no meu rosto. Foi meio que inesperado, eu nem tinha conseguido escrever nada sobre a mãe, ainda estava vendo os sinais vitais”, afirma.

Daniela diz que o homem continuou com xingamentos até outros profissionais que trabalham na UPA chegaram à sala e conseguiram controlar o agressor, aguardando a chegada da Brigada Militar. Ela diz que, na hora, ficou com os antebraços machucados por terem sido apertados, além do tapa no rosto que levou. Dois dias após a agressão, Daniela diz que está bem. “Só chateada, a gente fica bastante chateada com a situação. Fisicamente, não teve nada [mais grave}”, diz.

Sobre o agressor estar na sala de triagem, ela diz que, como a mãe era uma pessoa mais velha, de 73, o costume é permitir que o acompanhante possa entrar junto. “A gente permite até por respeito, para conversar. Mas acredito que é uma atitude que vai ser alterada depois disso”, afirma.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que a UPA Moacyr Scliar é administrada pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e que não há necessidade de registro formal de ocorrências do tipo, a menos que se verifique a necessidade de interferência da pasta.

Após ser contatada pela reportagem, a Gerência da UPA encaminhou nota em que afirma que a “agressão à enfermeira ocorreu após a realização da classificação de risco da paciente, na qual foi verificado que a mesma apresentava todos os sinais estáveis, com indicação de atendimento em uma Unidade Básica de Saúde”. Em razão da superlotação da UPA, o atendimento no local está restrito apenas a casos de maior risco. A administração da UPA diz ainda que os encaminhamentos necessários ao caso foram dados, com registro de ocorrência, e que a unidade possui equipe de vigilância 24 horas. “Considerando ser um caso isolado, manteremos a atual configuração da unidade”, diz a nota.

A UPA Moacyr Scliar chegou a registrar 400% de ocupação de leitos durante o mês de março. Nesta sexta-feira, o painel de monitoramento de emergências da Prefeitura indicava uma taxa de ocupação de 111,76%.

Segundo a enfermeira, após a agressão, a paciente permaneceu junto com o filho, recusando atendimento posterior, e foi levada para casa por outra filha.

Daniela diz que imagina que a agressão tenha sido motivada porque a paciente não receberia a classificação de risco e, consequentemente, o atendimento que o homem desejava. Contudo, ela pondera que não é novidade o fato de pacientes e familiares agirem de forma agressiva com a equipe da UPA.

“Já aconteceram outra agressões. É mais fácil contra mulher. Mulher, sozinha, sem ter um segurança por perto [o segurança da UPA não fica próximo à sala de triagem], realmente se torna um alvo mais fácil. Mas os pacientes já vêm agressivos e tu não entende nem o porquê”, diz, acrescentando ainda que os ânimos estão mais exacerbados na pandemia, mas que isso já acontecia anteriormente. “O profissional de saúde está bem vulnerável, principalmente os de porta de entrada, de emergência e urgência”.