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Luciano Velleda | Sul21

O anúncio do governador Eduardo Leite (PSDB) de retomada da cogestão no modelo de Distanciamento Controlado, cujo resultado prático permite que as prefeituras adotem restrições de bandeira vermelha mesmo estando em bandeira preta, foi mal recebido por médicos e pesquisadores que estudam a crise causada pelo coronavírus. Nos últimos 15 dias, todo o comércio considerado não essencial teve que ficar fechado, como forma de diminuir a circulação de pessoas e, consequentemente, o contágio pelo vírus, no momento em que o sistema de saúde está em colapso, com UTIs superlotadas e emergências fechadas.

Leite justifica a decisão dizendo que os indicadores de ocupação hospitalar começaram a reduzir de velocidade no Estado. “O volume de pessoas internadas neste momento ainda resultará, infelizmente, em mais óbitos, mas os dados da demanda de internações já demonstram redução da circulação do vírus”, afirmou, acrescentando que tal redução é consequência das duas semanas e meia de restrições mais severas no RS.

“Do ponto de vista médico, é inexplicável”, afirma Eduardo Sprinz, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O médico projeta um cenário “mais mortal e sombrio” a partir da perspectiva de reabertura das atividades econômicas, o que pode acontecer já na próxima segunda-feira (22), justamente no momento mais grave da crise sanitária.

“Vai se morrer em casa. E se tiver leito, não existe mais como garantir um bom atendimento, não tem mais como manter uma boa qualidade assistencial. Não tem mais o que ser feito nos hospitais. Falta equipamento. Se não faltar equipamento, faltam profissionais. E se não faltar profissionais, falta qualidade no atendimento”, explica o médico, responsável pelos testes clínicos no Hospital de Clínicas com a vacina de Oxford/AstraZeneca.

Sprinz enfatiza que medidas restritivas da economia ou mesmo algo mais incisivo, como o lockdown, devem ser feitas por um período curto e com as pessoas tendo condições de ficar em casa para que a impossibilidade de trabalhar seja cumprida. Porém, os governos não têm oferecido essa contrapartida.

Com o sistema de saúde em colapso, Sprinz diz que a ideia de insistir na criação de mais espaço físico nos hospitais terá como consequência apenas as pessoas morrerem dentro das instituições. Ao fazer referência à fala do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, (MDB) durante entrevista à rádio Gaúcha, na qual ele disse que “sempre cabe mais um no hospital”, o médico volta a usar a mesma definição para a retomada da cogestão. “É inexplicável.”

Enquanto avalia que o negacionismo segue imperando na prefeitura da Capital, na esfera estadual o médico acredita existir melhor boa vontade e preocupação com a população. Ainda assim, as decisões tomadas não são exclusivamente do ponto de vista médico. “Perdemos o timing muitas vezes e vamos perder novamente”, lamenta.

Com a doença atingindo mais pessoas e também mais jovens, o tempo de ocupação dos leitos igualmente aumenta e o resultado é o pior possível. “Todas as pessoas têm que ensinar a população como se proteger, e não seguir enganando com tratamento que não existe.”

Erro repetido

O médico Alcides Silva de Miranda, professor de Saúde Coletiva na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que a retomada da cogestão e a permissão para que os prefeitos adotem medidas mais flexíveis é a repetição do erro que já ocorreu em maio do ano passado, com a diferença de que, agora, o momento é muito mais grave. Naquela ocasião, a abertura do comércio e o afrouxamento das restrições causou o aumento da contaminação, internação e mortes nos meses seguintes de junho, julho e agosto. O sistema de saúde, porém, resistiu bem à pressão. Agora, no entanto, os hospitais já estão em colapso.

“Repetir isso agora, com a cogestão, é dar margem para a pressão mais forte do interesse econômico, que é mais forte sobre as prefeituras”, avalia Miranda. Outra diferença em relação à abertura feita em maio de 2020 é a circulação da nova variante do vírus, a P.2, com maior potencial de contágio, um adoecimento mais grave e com mais mortes. “Já temos evidência e dados de que isso está claramente acontecendo. Estamos vendo essa mortalidade aumentar em pessoas sem comorbidades e mais jovens.”

Miranda diz que o discurso dos prefeitos de “compartilhar responsabilidades” é, na prática, o de “transferir responsabilidades”. Ele projeta que depois, quando houver aumento de mortes, e de mortes sem assistência, há prefeitos que irão transferir a culpa. “Depois ninguém vai assumir o erro.”

O professor de Saúde Coletiva na UFRGS acredita que os erros cometidos pelos governantes depois de um ano de pandemia não podem mais ser atribuídos à falta de conhecimento ou de estratégia. Para ele, talvez possa já haver responsabilização penal. “O governo estadual está transferindo responsabilidades”, afirma, destacando que no final do ano passado ele e outros especialistas alertaram para o que poderia acontecer agora em fevereiro e março. Os alertas, porém, não repercutiram ou tiveram força diante do interesse econômico.

“É um interesse econômico burro, que não percebe que está ajudando a piorar essa crise, inclusive a crise econômica. São ‘empresários da morte’ que não conseguem pensar em médio prazo, mesmo na questão econômica”, diz Miranda.

O governador Eduardo Leite não confirmou que a cogestão será retomada já a partir da próxima semana, mas disse que se os indicadores de internação hospitalar permanecerem na tendência atual, isso poderá ocorrer. “Sabemos que o fôlego da população, no quesito econômico, é limitado. Por isso, se os indicadores nos permitirem, até o final desta semana, confirmar essa efetiva redução do contágio e da demanda hospitalar, poderemos partir para a retomada da cogestão”, disse.

O Sul21 entrou em contato com a assessoria do Palácio Piratini e questionou se a diminuição dos indicadores de internação não é consequência da situação limite dos hospitais, ou seja, com o sistema em colapso e sem ter como atender novos pacientes, a consequência natural é esse indicador não aumentar.

O Piratini respondeu que a melhora do indicador de internação citada por Leite “provavelmente tem relação com uma redução dos contágios, cuja magnitude ainda é difícil mensurar”. E acrescentou que os hospitais, mesmo sobrecarregados, seguem atendendo, ainda que em condições nem sempre ideais, “quase a totalidade dos doentes que deles necessitam, ainda havendo um número significativo de leitos clínicos disponíveis”.