Foto: Cesar Lopes/PMPA

‘Abrir a cidade?’ Programa de governo de Melo ignora cenário de agravamento da pandemia

Marchezan espera que Melo descumpra suas promessas de campanha em relação à pandemia.

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Marco Weissheimer | Sul21

O prefeito eleito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), passou toda a campanha eleitoral prometendo que “reabriria” a cidade, caso fosse reeleito. A aliança de Melo com os críticos do “fechamento” dos negócios da cidade em função da pandemia do novo coronavírus ignorou a possibilidade de um recrudescimento da pandemia, seja por meio de uma segunda onda de contágio ou de um repique da primeira, que já está acontecendo. A cidade foi sendo progressivamente “reaberta” nas últimas semanas, especialmente no período da campanha eleitoral. Diante do aumento dos casos de contágio e das taxas de ocupação de leitos de UTI na cidade, o atual prefeito, Nelson Marchezan Júnior (PSDB) editou novo decreto, freando, ainda que timidamente, a abertura que estava em curso.

O que o novo prefeito fará a partir do dia 1o de janeiro, quando assumir? O prefeito que sai já deu a dica. “Prefiro um prefeito que mude de ideia, que descumpra sua promessa, do que um prefeito eleito irresponsável”, afirmou Marchezan em entrevista à rádio Gaúcha no início desta semana. Melo, até aqui, adota um discurso evasivo sobre o tema, repetindo generalidades. “A saúde vem em primeiro lugar, mas não podemos descuidar da economia”, repete.

O programa de governo do prefeito eleito parece considerar a pandemia como um fato do passado e Porto Alegre estaria pronta para ser “reaberta” e tornada uma “capital do empreendedorismo”. Intitulado “Serviços, inovação e desenvolvimento para fazer o futuro e o bem-estar dos porto-alegrenses”, o programa da Coligação “Estamos Juntos Porto Alegre” não traz nenhuma proposta que considere a continuidade ou agravamento da pandemia. As referências à covid-19 são rasas, superficiais e sempre subordinadas à necessidade de “reabrir” a cidade, ignorando o cenário que a capital gaúcha enfrenta neste final de ano. O documento enfatiza a dimensão econômica envolvida na pandemia e não faz qualquer consideração sobre o que fazer em caso de aumento do nível de contágio, como está acontecendo agora:

“O tema da economia na Porto Alegre pós-pandemia já preocupa desde agora. O comércio, os serviços, a indústria, o turismo de negócios, a proteção social, a educação e o emprego foram duramente atingidos e isso provocará consequências, muitas ainda imprevisíveis. Para enfrentar essa conjuntura nossa cidade precisa criar uma ambiência para atrair investimentos com menos regulação, menos intervenção, menos burocracia, mais inovação e liberdade econômica”, diz, por exemplo, o documento.

Ou ainda: os problemas decorrentes da pandemia da COVID-19, as dificuldades tornam-se” ainda maiores e exigirão muita criatividade, competência e capacidade política para 17 aprovar as medidas necessárias ao aperfeiçoamento da gestão e à implantação dos projetos de governo”.

Na manhã desta quarta-feira, o índice de ocupação de leitos de UTI em Porto Alegre era de 90,94%. Com 100% de seus leitos de UTI ocupados, o Hospital Moinhos de Vento renovou as medidas de restrição de acesso aos serviços de emergência por mais 72 horas. O Moinhos não está atendendo casos leves de covid-19 e pessoas com suspeita de infecção pelo novo coronavírus. Outros hospitais, como o Mãe de Deus, São Lucas e Cristo Redentor também estavam com suas UTIs praticamente lotadas na manhã desta quarta.

Professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, Alexandre Zavascki, alertou, terça-feira (1º) em seu perfil no Twitter: “Para quem não entendeu a gravidade: RS hoje com média de casos/100k hab/dia superior a países como Espanha, Bélgica, Reino Unido e França. 2x média nacional de casos/dia ajustados p/ população”. E acrescentou: “Se as medidas não forem implementadas, não haverá mudança no cenário epidemiológico. Fico com a sensação de que as pessoas acham que os decretos têm efeito no vírus. Ação de todos é necessária para já”.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Zavascki assinalou que a taxa de transmissão do vírus no Brasil, e particularmente no Rio Grande do Sul, nunca diminuiu e com o processo de reaberturas e flexibilizações das medidas de distanciamento social, “nós saímos de níveis muito altos para níveis altos e começamos a fazer as aberturas com níveis altos de transmissão”. O médico afirmou ainda que foi passada uma ideia de normalidade para as pessoas e reverter isso é um processo difícil para os governantes, mas que precisa ser feito com urgência. A população e os empresários, em particular, precisam entender que não fazer isso trará mais danos à saúde das pessoas e também à economia

Em seus primeiros encontros como prefeito eleito, Sebastião Melo conversou com o atual prefeito da Capital e também com o governador do Estado, Eduardo Leite (PSDB). Em suas declarações após essas conversas, não houve nenhuma referência a esse sentido de gravidade e urgência que vem sendo repetido por médicos como Zavascki, mas apenas declarações genéricas como “trabalharemos juntos para melhorar a vida da cidade e a vida das pessoas”. O governador Eduardo Leite, por sua vez, disse, após a conversa com Melo que “é importante que estejamos alinhados no enfrentamento da pandemia para evitar descontinuidade”.

Durante a campanha eleitoral, Melo e seus aliados usaram como uma de suas principais peças de propaganda a afirmação de que a candidata Manuela D’Ávila iria “fechar a cidade” de novo, caso fosse eleita. Pois, agora, Melo está diante do dilema formulado por Marchezan. Vai cumprir sua promessa de “abrir a cidade” em meio a um quadro de agravamento da pandemia?

Nesta quarta-feira (2), Sebastião Melo anunciou a criação de um comitê para tratar da pandemia, durante o período de transição, com representantes que deverão ser indicados pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), pelo Conselho Regional de Medicina (Cremers), pela Associação Médica do Estado e por economistas de três entidades empresariais, Fiergs, Fecocomércio e Federasul. Ao anunciarem a criação do comitê, Melo e seu vice, Ricardo Gomes, reafirmaram a disposição de cumprir a promessa de campanha de “não fechar a cidade”, “equilibrando saúde e economia”. Não deram maiores detalhes de como será esse equilíbrio.