Em empresas com metas agressivas e alta rotatividade, o setor de Recursos Humanos (RH) identifica afastamentos por ansiedade, enquanto equipes de saúde e segurança do trabalho recebem relatos de exaustão e conflitos recorrentes. Até pouco tempo, esses sinais eram tratados de forma separada dentro das organizações, com cada área atuando de maneira independente. Mas a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 altera essa lógica e passa a exigir que informações antes dispersas sejam reunidas, avaliadas de forma integrada e incorporadas ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), orientando ações efetivas de prevenção.
E a proximidade da entrada em vigor da NR-1, prevista para 26 de maio, reforça a relevância do tema. Como base da política de segurança e saúde no trabalho, a norma deixa claro que o cumprimento das exigências depende da coordenação entre áreas estratégicas e da inclusão de fatores ligados à organização do trabalho e à saúde mental.
Para a advogada Kerlen Costa, da SCA Scalzilli & Althaus, a norma demanda diálogo constante entre RH, jurídico, lideranças e segurança. Segundo ela, alinhar valores internos, diretrizes institucionais e procedimentos formais deixou de ser alternativa e passou a ser requisito. “Quando cada área atua isolada, cresce a exposição a riscos”, afirma.
Consequências e novos desafios
Nesse contexto, questões como estresse prolongado, assédio moral, pressão excessiva por resultados e jornadas desequilibradas entram definitivamente no radar das empresas. A norma transforma um tema antes tratado de forma subjetiva em obrigação técnica, documentada e sujeita à fiscalização, exigindo ajustes concretos na forma como as organizações conduzem sua gestão.
Na prática, organizações precisam identificar fatores organizacionais críticos, revisar metas, fortalecer canais de escuta e capacitar gestores para reconhecer sinais de adoecimento no ambiente profissional. “Apontar o risco não é suficiente. É fundamental demonstrar que existem medidas de controle e acompanhamento”, reforça Kerlen.
Ela alerta ainda que ignorar as exigências pode gerar autos de infração, multas, aumento do passivo trabalhista e danos à reputação. “Com a vigência se aproximando, a mensagem é clara: integrar áreas, prevenir riscos e planejar de forma técnica fortalece a sustentabilidade do negócio e inaugura uma nova etapa na relação entre trabalho, saúde e gestão empresarial”, pontua.
O que as empresas precisam fazer para se adequar à atualização da NR-1
– Atuar de forma integrada: conectar RH, jurídico, lideranças e saúde e segurança do trabalho;
– Atualizar o GRO: incluir riscos psicossociais e fatores organizacionais de forma estruturada;
– Identificar riscos no ambiente de trabalho: mapear estresse excessivo, assédio, sobrecarga e conflitos recorrentes;
– Revisar práticas de gestão: avaliar metas, jornadas e modelos de trabalho que impactam a saúde mental;
– Preparar lideranças: capacitar gestores para prevenir condutas abusivas e reconhecer sinais de adoecimento;
– Registrar e acompanhar ações: documentar medidas de prevenção e monitorar resultados continuamente.



